terça-feira, setembro 07, 2004

10 autores dos quais gosto muito e de quem consigo lembrar agora (acrescidos de 10 trechos significativos – ou mais-facilmente-encontrados-no-google - que me eximam de escrever 10 explicações e justificativas)



No oitavo texto das comemorações do Han o membro semi-oficial do blog, o Leandro Durazzo, escreveu a lista mais diferente de todas até agora. Como ele quis falar dos escritores favoritos dele, ele achou que nada poderia ser dito a mais do que os próprios textos desses escritores, então temos uma lista na qual o autor não escreveu uma linha sequer fora o título! Chega a ser genial de tão preguiçoso! Mas sério, deem uma chance a esses poderosos textos que estão abaixo, vocês podem se apaixonar perdidamente!

PS: Antes de irem para a lista em si entrem nos três sites do Leandro, o coletivo Literário Os Caras do Clube, o site de poesias Mísera Mesa e o site de traduções Transcriação. O Leandro é um de meus mais queridos amigos (coisa bem constante nos autores dessa comemoração, alias). Fez parte do projeto Quatro Patacas e do podcast de literatura Cego em Tiroteio (QUE VAI VOLTAR SIM, tenham fé!), frequentou a faculdade no mesmo lugar e ao mesmo tempo que eu, mas em outro curso, o que não impediu que ele entrasse para a "turma"!

Confessem, essa foto do Calvino é GENIAL!

Obs: esta lista não está em ordem de preferência.

10 - Italo Calvino

clique na imagem para ler


09 - Murilo Mendes

Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.

("Mapa")


08 - E.E.Cummings

nalgum lugar em que eu nunca estive,alegremente além
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas



07 - Paulo Leminski

tudo dito,
nada feito,
fito e deito


06 - Rubem Braga

Mas quem me contou foi um homem velho que esteve lá; contou dizendo: "eles têm um sino de ouro e acham que vivem disso, não se importam commais nada, nem querem mais trabalhar; fazem apenas o essencial para comer e continuar a viver, pois acham maravilhoso ter um sino de ouro".O homem velho me contou isso com espanto e desprezo. Mas eu contei a uma criança e nos seus olhos se lia seu pensamento: que a coisa mais bonita do mundo deve ser ouvir um sino de ouro. Com certeza é esta mesmo a opinião de Deus, pois ainda que Deus não exista, ele só pode ter a mesma opinião de uma criança. Pois cada um de nós quando criança tem dentro seu sino de ouro que depois, por nossa culpa e miséria e pecado e corrupção, vai virando ferro e chumbo, vai virando pedra e terra, e lama e podridão.

("O sino de ouro)


05 - Mario Quintana

Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

("O trágico dilema")


04 - Marcelino Freire

Oferenda não é essa perna de sofá. Essa marca de pneu. Esse óleo. Esse breu. Peixes entulhados. Assassinados. Minha Rainha. Não são oferenda essas latas e caixas. Esses restos de navio. Baleias encalhadas. Pinguins tupiniquins. Mortos e afins. Minha Rainha. Não fui eu quem lançou ao mar essas garrafas de Coca. Essas flores de bosta. Não mijei na tua praia. Juro que não fui eu. Minha Rainha. Oferenda não são os crioulos da Guiné. Os negros de Cuba. Na luta. Cruzando a nado. Caçados e fisgados. Náufragos. Minha Rainha. Não são para o teu altar essas lanchas e iates. Esses transatlânticos. Submarinos de guerra. Ilhas de Ozônio. Minha Rainha. Oferenda não é essa maré de merda. Esse tempo doente. Deriva e degelo. Neste dia dois de fevereiro. Peço perdão. Minha Rainha. Se a minha esperança é um grão de sal. Espuma de sabão. Nenhuma terra à vista. Neste oceano de medo. Nada. Minha Rainha.

("Para Iemanjá")


03 - Wang Wei

Vem beber um copo e descansar,
Os homens mudam sempre, como as ondas do mar.
Nós dois temos envelhecido juntos,
apesar dos reveses, continuamos vivos.
O primeiro a habitar uma casa de portões escarlates
pode sorrir, ao olhar os outros de chapéu na mão.
Tu sabes, basta um pouco de chuva
para reverdecer a erva dos caminhos.
O vento da Primavera é ainda frio
mas os botões das flores quase desabrocham.
Por que tanta pergunta, tanta luta,
os negócios do mundo, as nuvens flutuantes?
Descansa, deixa fluir a vida,
e vem jantar comigo.

(“Oferecendo beber a Pei Ti”)


02 - Jack Kerouac

... todas as crianças estão brincando no telhado, redes estendidas logo abaixo para segurar as que caírem. Quando alguma cai, chorando sobre a rede, as outras crianças observam, sorrindo [...] "Por que vocês não vão
brincar na calçada?", pergunto. "Não dá. A civilização está muito espalhada" --- A culpa é um sonho, piedade é a única realidade.

("Livro dos sonhos")


01 - Lygia Fagundes Teles

O Rancho Azul e Branco desfilava com seus passistas vestidos à Luís XV e sua porta-estandarte de peruca prateada em forma de pirâmide, os cachos desabados na testa, a cauda do vestido de cetim arrastando-se enxovalhada pelo asfalto. O negro do bumbo fez uma profunda reverência diante das duas mulheres debruçadas na janela e prosseguiu com seu chapéu de três bicos, fazendo flutuar a capa encharcada de suor.

– Ele gostou de você – disse a jovem, voltando-se para a mulher que ainda aplaudia. – O cumprimento foi na sua direção, viu que chique?

A preta deu uma risadinha.

– Meu homem é mil vezes mais bonito, pelo menos na minha opinião. E já deve estar chegando, ficou de me pegar às dez na esquina. Se me atraso, ele começa a encher a caveira e pronto, não sai mais nada.

("Antes do baile verde")


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Como disse acima, a ideia do Leandro é semi-genial tanto que estou seriamente propenso em (mais tarde) fazer uma lista minha no mesmo formato. E isso me levantou um pensamento, apesar de eu adorar todos os autores citados por ele, a minha lista seria 100% diferente. Isso mostra quão pessoal é a leitura para cada um de nós.


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