quarta-feira, setembro 08, 2004

10 canções sobre amor e perda



Chegamos ao quinto dia e à quinta lista da nossa comemoração. Para esta lista convidei meu amigo de mais longa data, o Thiago Augusto Corrêa. Conheci o Thiago na escola, mais precisamente no final do primeiro colegial quando mudei para o colégio onde ele estudava. Daí pra frente sempre fomos amigos. Fizemos faculdade juntos, moramos juntos (heterossexualmente falando) durante o período da faculdade e tivemos um blog juntos, o Quatro Patacas (que também contava com o Vinicio e o Leandro, que também participarão desta comemoração). Também participamos juntos do podcast de literatura Cego em Tiroteio ano passado (que voltará eventualmente) e escrevi durante um tempo sobre música para o blog dele, Todo Mundo Mente (que infelizmente também está parado). Atualmente ele vem se dedicando a dois projetos, o blog Golfinhos do Himalaia e o Vortex Cultural, para onde escreve notícias e resenhas. Não me prolongarei mais, já que o próprio Thiago explica sobre o convite para escrever a lista abaixo. Boa leitura.

Spoiler: tem uma música do Roberto na lista
Spoiler 2: não é desse disco (mas gosto mais dessa capa)

Convidado pelo Arthur que me pediu gentilmente para produzir uma das dez listas que comemoram a centésima publicação do Han Atirou Primeiro, elaborei uma lista temática que surgiu ao acaso após ouvir uma das canções que a compõe.

Se a música é primordialmente uma manifestação emotiva, há muitos movimentos amorosos nela e, por consequência, de relações que terminam. A lista não tem nenhuma ordem prioritária e se baseia inicialmente em meu gosto particular para elaborar este panorama que apresenta, em diferentes pontos de vista, compositores versando sobre o amor e perda.

Agradeço a oportunidade principalmente pelo prazer que tenho ao falar sobre música, uma das artes que gosto mas que escrevo muito pouco.


10 - Maria Rita, Santa Chuva



Lançado no primeiro álbum da cantora, em 2003, Santa Chuva é uma das primeiras composições de Marcelo Camelo entregue a outra interprete. O cantor faria gravação posterior em seu primeiro disco solo.
Mesmo que hoje, muito por conta dos fãs, retire-se parte do talento de Camelo como compositor, a canção é um triste retrato sobre um casal e utiliza-se do diálogo – um elemento presente em diversas de suas canções – para intensificar a emoção.

Em shows, Maria Rita produzia um espaço cênico para interpretá-la. Dois microfones no palco e uma luz azul a direita e uma rosa a esquerda, dando voz para cada parte da relação. Sua interpretação intensifica-se com a angustia final, ressaltando a briga do casal que, como em qualquer discussão real, começa equilibrada e explode em calor.

A chuva traduz-se como o elemento superior que cai sobre a relação como um ato final, explícito em um dos melhores versos: não há porque chorar por um amor que já morreu.


09 - Sexed Up, Robbie Williams



Robbie Williams tem grande popularidade na Inglaterra, seu país natal, mas nunca conseguiu implacar uma carreira no exterior além de seus hits de sucesso. Sexed Up, de Escapology, 2002, talvez tenha sido o maior deles, sendo trilha de novela brasileira também.

A balada é irônica do começo ao fim encontrando na morte do relacionamento, no silêncio entre as partes cientes da danação. Sem comunicação ativa, sobra espaço para a amargura que vem em ironia em um refrão que eclode uma agressão verbal, negando com raiva a morte do amor. 

Como na canção anterior, sua construção caminha para um final mais violento que seu inicio. Evoca o poeta latino ao afirmar que encontrará em outras pessoas alguém igual a amada. Inferindo que o amor não é tão único como se espera.

Williams tem bom senso das canções que faz. Outra boa canção, neste caso, sobre um amor que funciona, é She´s The One, com um clipe que narra uma interessante história que também se destaca.


08 - A Maça, Raul Seixas



A tristeza irônica como proteção e expiação do fim do amor prossegue nesta canção de Raul. Música que nunca interpretei como um discurso a favor do amor libertário. Talvez a visão esteja errada, mas sempre ouvi a canção imaginando um homem destilando a raiva de alguém que não deseja um amor a dois e que acredita que a libertação é a abertura a outros.

Diante desta afirmação, a maça seria a representação de que todos são iguais. A canção integra-se com a anterior pela sensação que anula a singularidade de cada individuo, mais normais do que parece, mais substituíveis do que pensa, desde que se goste daquilo que eles proporcionem.

O amor é subjugado pelo próprio desejo. A maçã é também a representação de um fruto proibido, é o próprio desejo e privar-se do desejo seria anular as próprias vontades e, assim, viver preso a um relação uma inconsistência.

Vejo a canção como decepção recheada de ironia. A voz rasgada de Raul intensifica o elemento agressor, dando vazão as discrepâncias de pensamentos até de pessoas que se amam.


07 - Eu Que Não Amo Você, Engenheiros do Hawaii



A aceitação de um término parece dificil de se compreender. Eu Que Não Amo Você, primeira faixa de Tchau, Radar!, álbum de 1999 e nunca reeditado, mostra certa fuga da realidade fria.

A canção nos situa de um termino estabelecido como final abrupto que não se escolhe, mas imposto ao personagem da canção. Diante desde cenário, projeta-se a desolação e uma afirmação em que, tentando permanecer por cima dos problemas, afirma mentirosamente que não ama quem se foi. 

Sem rodeios das canções anteriores, a letra toca o cerne da questão: a sensação de impotência perante o que não é desejado.


06 - Still Got The Blues, Gary Moore



O blueseiro Gary Moore, que saiu de cena há dois anos, produziu esta que seria sua canção mais conhecida em 1990, quase vinte anos após o início de sua carreira. Um riff de guitarra grita no início dando o tom da balada, um homem lamentoso que dedica mais um momento de tristeza àquela que foi amada
.
O blues se torna duplo, tanto é a tristeza azul, expressão muito utilizada no inglês, como o próprio estilo que consagrou Moore, tornando-se uma referência a própria música.

Perante a relação terminada, além da tristeza sobrou o blues como lamentação que se projeta na canção. O grandioso solo final é o choro incontido após a consciência do fim. O solo foi julgado em 2008 como o plágio de uma canção alemã mas Moore afirmou que, na época, não havia nenhum registro possível para que tivesse ouvido e copiado o solo. De qualquer maneira, original ou não, o solo fecha com primor a canção visceral sobre perda.


05 - Detalhes, Roberto Carlos



Roberto e Erasmo Carlos compuseram, principalmente, na década de sessenta e setenta um dos cancioneiros mais coesos da música sobre o amor. Foram da paixão juvenil espelhada pela jovem guarda a desilusões amargas da maturidade, passando por amores devotos e relações breves mas profundas.

Detalhes é um dos grandes ápices, oriundo de um dos primeiros discos do Rei na década de 70, sem título além do nome do artista.

Também refletindo amargura e certo orgulho, a personagem dialoga com a antiga amada em uma última canção devota. O outrora amor torna-se uma sequência de fatos que demonstram a importância que o amor deixado será na vida futura da pessoa em questão.

A letra cresce a cada verso em que a personagem se projeta em sombras no futuro de quem o deixou. Mesmo sem a presença física, é memória viva impossível de ser ignorada. Tema semelhante será versado por Capital Inicial em Eu Vou Estar. Demonstrando que, não importa o gênero musical e nem o estilo de composição, o amor sempre se ilude e retorna como raiva.

Roberto realizou diversas gravações da canção. Além da original, destaco a acústica em que o Rei dedilha a base da canção em um violão e, ainda hoje, anos depois da gravação oficial do acústico, utiliza este recurso em seus shows. 

A lírica se destaca também pela lucidez, reconhecendo que o decorrer do tempo desfia as certezas deste amor tão vívido. O final da versão acústica tem um não – do verso não adianta nem tentar me esquecer – dito a meia voz, mais próximo da fala do que do canto, intensificando a sensação de importância – e de certa arrogância – da personagem da canção.



04 - For No One, The Beatles



Paul McCartney sempre explorou a sensibilidade em canções que, pela leveza ou simplicidade, reproduziam uma espécie de crônica da vida. The Fool On The Hill fala a respeito do deslocamento perante outros, Here, There and Everywere sobre a constância do amor, e tanto Eleanor Rigby quando For no One representam quase que definitivamente canções sobre a solidão.

Em For No One o espaço vazio da vida não parece uma história específica, o que universaliza a sensação de vazio. Dois minutos são os necessários para que Macca seja avassalador sobre o instante que transforma o amor em nada. A visão, porém, não é irônica. É vista de maneira objetiva, o que explica a afirmação de crônica, e fazendo da canção uma das mais profundas sobre o tema, que se projeta pela ausência de alguém amado.

Desde o início da canção – e peço perdão por não saber os termos técnicos – as notas graves do piano e do baixo ecoam na canção, deixando que cada acorde termine no vazio. As notas são exploradas ao máximo, sabiamente usando o silêncio como aliado até mesmo nos acordes finais da canção, que deixam no ouvinte a sensação de um fim abrupto que nenhuma palavra é capaz de preencher.


03 - Trocando Em Miúdos, Chico Buarque



As famosas canções de Chico Buarque com personas femininas não são aterradoras quanto Trocando Em Miúdos. Talvez errôneo seja interpretar a canção como um personagem masculino já que parece proposital a dúvida.

Desde o título é evidente as cinzas de uma relação fragmentada. O que sobrou do amor são apenas espólios e caixas do que ficam e do que vai. O carinho parece falso em versos que desejam bom futuro a amada, uma maneira tímida e educada demais com aquele que nunca será visto.

A personagem rememora o passado, as tentativas de futuro e cai no desolamento. Como a canção anterior, seu tempo é curto mas a atmosfera pesada. O orgulho se mantem nas lágrimas contidas, na dor que se explicita pela interpretação amargurada de Chico, repleto de pausas que parecem segurar o choro, em destaque para um trecho em que sua voz parece embargar.

O final é um desfecho morno e não desejado, como todos os términos são. O leve fechar da porta da frente e a triste constatação de que, tão perdido que está, tem consciência de si apenas na carteira de identidade como objeto físico já que tudo está desfacelado pela dor.


02 - Não Me Arrependo, Caetano Veloso



Caetano Veloso revitalizou-se em Cê, de 2006, pesando nas guitarras mas não deixando a lírica de lado. Em Não Me Arrependo, que não explora a verve roqueira, apresenta um fim que, ao contrário das canções vistas até aqui tem viês memorialista que reconhece a dor mas também as lembranças positivas da relação.

É lucidez perante as canções que cospem um coração corroído. De peito aberto, Caê não arrepende-se do passado, reconhecendo que, pelo bem ou pelo mal, a relação gerou frutos. Tendo a consciência de que houve um tempo permanecido juntos e que tal realidade vivida a dois, talvez só reconhecida pelo casal, é mais forte do que o cinismo que sobra e sempre tende a ecoar no fim.  

É uma canção triste que observa por um outro viés o mesmo sentimento. Afirmando que as histórias, boas e ruins, são levadas até a morte por aqueles que a viveram e que, talvez por isso, devam ser levadas em conta em vez de ignoradas ou arrependidas.

Caetano intercala a voz doce entre tom graves e agudos, falsetes utilizados em toda sua carreira e constantes nessa revitalização de si.


01 - A Seta e o Alvo, Paulinho Moska



Com vinte anos de carreira solo, A Seta e o Alvo de Moska continua sendo uma das canções mais viscerais de seu cancioneiro que muito versa sobre amor e raramente contempla o amor que se foi abstendo-se de ironia.

Observando sua discografia, a canção se localiza anterior a outros futuros álbuns que apresentam agressivas canções de amor. Aqui dois mundos supostamente semelhantes são postos em xeque, evidenciando suas naturezas diferentes em comparações que intensificam o abismo do casal.

Não é uma canção que fala explicitamente de um término, porém, perante tais comparações insinua-o fortemente, dando-nos a sensação de um amante que deseja o avanço e outro que permanece estagnado e imóvel. Dois mundos que, embora orbitem juntos, são diferentes.

Reconhecendo que algumas canções de Moska são autorais, A Seta e o Alvo é música que ninguém gostaria de ser reverenciado. Mesmo não conhecendo as personagens reais, se é que existiram, a mensagem é poderosa e leva ao limite a situação de que é impossível dar-se ao máximo a alguem quando está pessoa não deseja. A poética de cada verso é tão poderosa que o refrão – É a seta no alvo, mas o alvo na certa não te espera – torna-se banal. Os versos eu olho pro infinito e você de óculos escuros, eu digo te amo e você só acredita quando eu juro e eu me ofereço inteiro e você se satisfaz com metade identificam bem a discrepância da relação, além de serem incríveis por si.

Moska gravou oficialmente a canção quatro vezes. No álbum Contrasenso, de 1997, e em três álbuns ao vivo: Através do Espelho: ao Vivo no Rival, em que reproduz a melodia original ao vivo, + Novo de Novo, de 2007, em voz e violão, com uma maior urgência em cantá-la que termina em versos entoados em diversos tons sequenciados. Na nova gravação lançada este mês em Muito Pouco Para Todos, a canção volta ao formato original e os violões acompanham as guitarras.

Independente das versão é uma daquelas canções que nunca parecem perder sua forma sendo nova a cada audição.

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Esta lista do Thiago mostra mais uma vez como ficaram bem díspares as listas dos convidados, essa foi para um caminho mais triste e uma análise mais profunda das músicas. Duro acrescentar algum item a uma lista tão intimista, mas acho que Backstreets do Bruce Springsteen seria uma boa adição.


2 comentários:

Vinicio disse...

eu acho que "Downbound Train" do springsteen é desesperadora, mas fico contente com o Moska em primeiro lugar.

Arthur Malaspina disse...

Já que citamos Springsteen, Brilliant Disguise é obrigatória aqui!