segunda-feira, setembro 06, 2004

Dez coisas que não vivo sem



O que falar da Lélis? Eleonora é o escambau, pra mim será sempre Lélis! Ela é uma das minhas melhores amigas, a conheci na faculdade e IMEDIATAMENTE achei ela insuportável  e tive vontade de matá-la! Depois de umas semanas ficamos amigos...Poxa, sou mestre Jedi do Pã, filho mais velho dela e judeu capitalista level master! Sou padrinho das duas filhas dela, a Nix e a Io, mas sem essas breguices de batizado, apenas um acordo verbal que não pretendo descumprir. Pra falar a verdade, desde então venho tentando matar a Lélis de tempos em tempos, pra poder ficar com as meninas pra mim, mas a maldita é vazo ruim! Nas internets da vida ela escreve no blog Catálogo suicida da Lô, que atualiza menos do que eu fazia no Han antes da entrada da Daniela, pra vocês verem o drama! Mas a gente perdoa porque... 3 filhos né...

Pedi a ela um top 10, como fiz com todo mundo, ela me entregou algo parecido com isso... mas é tão, tão bonito, que não pude mexer, seria um pecado. Leiam e se deliciem!


Esta é a Lana, uma das gatas que a Lélis cita no texto abaixo
e que era minha antes de eu me mudar de Araraquara
e deixá-la aos cuidados da moça.


Já faz uns dias que recebi um convite, com um quê de intimação, para escrever uma lista de dez. Sim, de dez.

“Dez o que?” me pergunta o incauto leitor. Dez qualquer coisa.
Na verdade era pra ser dez alguma coisa que eu gostasse muito. E mesmo com a insônia, a bebê (que não tem insônia, mas horários alternativos de sono), o trabalho, a dor nas costas (ah, a dor nas costas), o computador mais falido e fdp do universo estendido, decidi que hoje eu escreveria. Decidi depois de ser ameaçada de morte.

Mas então, eu vinha pensando durante esses dias todos sobre o que escrever... Na hora achei prudente escrever sobre os dez gatos. Não “os dez mais gatos”, tô nem aí pra beleza masculina enquanto não puder dormir por seis horas de novo. Os dez gatos seriam mesmo dez gatos. Tenho dez... Bem, mais de dez. E como selecionar somente uma dezena? De todos os que passaram na minha vida? Impossível... Assim, de chofre, lembro de pelo menos cinquenta grandes gatos, da Lana, do Benja, do Aaron, da Jerimunzinha, da inesquecível Berli, da Berliosa, do Agamenon... E de mais um monte. Esses todos já morreram, e ainda há os vivos.

Desisti de falar sobre gatos.

Pensei em “Os dez melhores filmes”. Hahaha, se me pedissem uma lista com cem, já seria difícil selecionar... Vou ao cinema desde os seis meses e filmes são bons nem sempre pelos mesmos motivos. Há filmes que me deixaram completamente apaixonada pela fotografia, outros pela música, há filmes que me causam inveja mórbida pelo roteiro e outros simplesmente eu gostaria de ter feito. Gostaria de dizer que eram meus. E a classe mais difícil e complexa de ser analisada: os filmes que assisti nas melhores companhias. Foram tantos. Os últimos que assisti com meu pai, os que assisti com minha avó, os que vi de mãos dadas, aqueles que ouviram gargalhadas em uníssono. E então desisti dos filmes e pensei em amigos. Sim, amigos... Mas era quase como falar de gatos. Escolher dez? Não, não ia rolar. Só aqui, dessa galera que escreve, eu poderia citar quatro, quero dizer cinco, não, não, tem o Puncha também, ah, seis, mas tem a mãe do Arthur e tem também o Gu, que não escreve, e a Amanda, e o Vandrinho, e... Amigos não, não dá pra selecionar só dez.
Certo. Certo.

Viagens poderia dar certo. Comecei a rascunhar.

E numa tentativa hercúlea de lembrar de algumas, e de tentar resumir uma juventude de caronista em poucas frases, eu fui percebendo o quanto ainda gosto de viajar, o quanto me faz falta a mochila nas costas e simplesmente não saber para onde vou. Era assim, era fácil. A gente percebe que tá envelhecendo porque as coisas simples vão ficando complicadas. Viajar era simples. Não é mais. Tenho que pensar onde vou deixar os gatos, se vou ter grana, se vou dar conta de ficar um tempo sem trabalhar e se o corpo aguenta. Tá, tô velha e risquei viagens.

Gente grande gosta de comida. Eu devo ter dez comidas favoritas. Pensei, pensei, pensei e na verdade não tenho. Tenho algumas, mas depende do dia, da hora, do humor e, principalmente, do fígado. Nos dias que o fígado tá bom, tudo fica legal, até jiló. Nos outros... Nos outros é que são elas. Dá-lhe chá de boldo e escolher outra classe de dez coisas sobre as quais escrever.

Canções: Dez canções, top 10, parada de sucesso.

Ai, quem não lembra dessas coisas da rádio?

Eu cresci ouvindo rádio. Deitava na cama da minha mãe e punha o rádio como se fosse um travesseiro e passava a tarde inteira ali, com a cabeça pendurada na cama, olhando pro teto e imaginando que legal seria se a gente tivesse uma casa de ponta cabeça... Já pensou em ter que pular o batente das portas e andar no forro? E a lâmpada? Ela iria ficar esticada ou cairia? Na época eu desconhecia a gravidade. A lei, porque já sabia que certas coisas eram graves, entre elas não gostar de música. Não gostar da mesma música que eu me parece um erro, mas não gostar de música me parece um crime. Não gosto de quem não gosta de música e gosto menos ainda de quem consegue elencar apenas dez músicas em toda sua existência. Minha vida tem trilha sonora, uma que só eu ouço. Dez músicas apenas seria decadência.

Pulei.

Livros. Tá, tá, Dez livros poderia ser viável.

Eu poderia citar Hemingway, poderia citar três do Douglas Adams, Coisas Frágeis 2, poderia lembrar de Senhor dos Anéis, de As chaves do Reino, de Fundação, Os jardins de Rama, Encontro com Rama, 2001, Um gato entre os pombos, On the road... Ops, já passei dos dez? Já?

Tá, vou tirar dois da lista aí de cima... Mas, mas... Mas qual?

Entendem?

Sou indecisa por natureza, alguns dizem que é porque sou aquariana, minha mãe jura que é falta de guasca e meu irmão fala que é frescura (o que dá quase no mesmo).

E já sendo ameaçada diariamente por um dos responsáveis pelo blog (não quero citar nomes, pode ser comprometedor), eu comecei a me desesperar.

Eu não gosto de moda, não tenho milhões de sapatos, não tenho dez não sei o que preferidos na vida, tenho lidado com um TOC violento e procurado não manter regras sobre números, formas e ações (mesmo que isso me consuma) e se fosse escrever sobre dez, por exemplo, namorados, perderia amizades.

Me sobrou escrever sobre dez lugares.

Agora, me diz? Quem tá querendo saber sobre São Lourenço do Turvo? Diz? É isso ou Argentina. Porque os lugares pouco me importaram, eram legais e tals, mas lugares são lugares, o que a gente vive lá que é o bacana. Não há como escrever: “Dez lugares. Lugar 1 – São Paulo porque é grande, porque tem luzinhas coloridas, porque é cheio de gente e se você chegar lá num dia ruim, bem, estará cheirando a chorume...”. E olha que Sampa é minha cidade favorita no planeta.

Não rolaria nunca falar sobre lugares desconectando-os das pessoas, das experiências, da cor que eles tinham e do que eu sentia quando estive lá... A maior parte dos meus lugares era estrada, era eu tentando me achar. Ainda é.

E aí, quando a morte me parecia certa (o tal rapaz do blog, o que andava me ameaçando, tem nome de mafioso, achei que seria prudente evitar que ele deixasse essa ancestralidade vir à tona), eu decidi que escreveria sobre meus filhos. Que são as pessoas que mais me surpreendem na vida e como eles resistem firmes e fortes até mesmo à educação que dei a eles. São pessoas incríveis, são mais inteligentes do que eu pudera imaginar e são mais sensíveis e amáveis e solidários do que querem eles mesmos crer. Mas há um problema. São apenas três.

Não daria pra fazer uma lista de dez...

Vícios? Só tive um, o cigarro.

E depois de escrever, de olhar e pensar “Quem, raios (!!!), vai ler um texto de seis milhões de toques?” percebi que tinha minha lista de dez coisas. Dez coisas que são milhares, que se dividem e se transformam, e sem as quais não imagino que eu pudesse viver.

Eu nunca saberia como existir sem poder ter gatos, e coçá-los durante os filmes, e receber amigos para filmes, jantares e canções. E sentir saudade de todos quando viajo e mesmo assim me dar o direito desse tempo longe, em outros lugares, com outros cheiros, como livros novos que acabam de chegar e todos os dias evitar voltar a fumar, simplesmente porque eu quero mais tempo com meus filhos.

Pensando bem, acho que a minha teen list é parecida com a de todo mundo...

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No meio da deliciosa confusão do texto da Lélis vocês conseguiram achar os 10 itens? Quais seriam os seus 10? Não creio que os meus fossem muito diferentes dos dela.


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