terça-feira, janeiro 06, 2009

Jesus e Javé: Os Nomes Divinos – Harold Bloom



Incomoda-me muito profundamente que os livros sobre religião, até os que tem como base a teoria literária, não se mostram desapegados das crenças pessoais de seus autores. Esse Jesus e Javé do crítico estadunidense Harold Bloom padece do mesmo mal. Por ser judeu Bloom dá preferência consante a Javé e as crenças judaicas e por vezes chega a nomear as crenças cristãs como usurpadoras da Tanak e do Javé hebreus. Claro que a maioria dos livros dos teóricos cristãos comete a mesma injustiça relegando o judaísmo à figura de religião ultrapassada. Um exemplo da clara preferência de Bloom:
“(...) lembro-me que o livro de Daniel é bastante diferente nos contextos do Testamento cristão e da Tanak. Para os cristãos, Daniel é um dos grandes profetas, comparável a Isaías, Jeremias e Ezequiel, o que constitui um exagero absurdo. Para os judeus, Daniel não é sequer um poeta menor, sendo situado nos Kethuvium, ou Escritos, entre Ester e Ezra.”

O grifo é meu e demonstra a clara predileção de Bloom pela Tanak sem ter sempre argumentos tão claros, como é o caso aqui, em que nenhum argumento para que o fato de Daniel ser um grande profeta seja “absurdo”.

Fora essa predileção que permeia toda a obra, o que sobra é um estudo de fôlego sobre as diferenças e semelhanças entre as figuras de Javé, o deus hebreu e Jesus, o messias do novo testamento cristão. A teoria defendida por Bloom sobre a inadequação entre as duas religiões faz certo sentido e ele as defende com argumentos fortes, ainda que extremos, como:

“O diálogo entre cristãos e judeus não é sequer mito – no mais das vezes, trata-se de farsa.” “Se Jesus Cristo, Deus verdadeiro e homem verdadeiro está absolutamente distante de Javé (...), isso ocorre porque formulações teológicas gregas e memórias da experiência hebraica são simplesmente antitéticas.”

No desenvolver do livro Bloom ainda nos surpreende com constatações incrivelmente lúcidas, como: “Para a maioria dos ocidentais, ou Deus é algo pessoal ou então algo que não faz a menor diferença.” Presente em um curto e belo trecho onde discorre sobre como cada fiel de cada religião ocidental (no caso judaísmo, cristianismo e islamismo) enxerga e se dirige a “seu” deus. Conclui:
“Para todas essas pessoas, Deus precisa compreender, e até mesmo compartilhar, muitos sentimentos humanos, ou seria reduzido à irrelevância.”

Outro grande momento do livro é uma constatação de Bloom sobre as pretensões literárias de Javé:

“A Tanak não nos oferece o relato da origem de Javé. Não tem pai nem mão, e parece rolar das páginas de um livro talvez escrito por ele próprio. É possível que ele tenha escrito antes de falar, e que tivesse de formar um público que o lesse e ouvisse. Se for esse o motivo escuso que o levou a arriscar a criação, Javé difere apenas em grau, não em espécie, de qualquer autor que conheço.”

Tão polêmica quanto essa afirmação é a idéia do auto-exílio de Javé, que cabe dizer não é de Bloom, mas ele emprega bastante no livro. A idéia geral seria de que Javé ao criar o mundo, habitado por humanos, que constituiria “uma realidade que dele se encontra divorciada”, escolhe o auto-exílio. É uma idéia por demais forte e polêmica, assim como brilhante.

Como dito, Bloom apresenta nessa obra a mesma postura extrema que vem adotando nos últimos anos, com obras como O Livro de J, Gênio, O Cânone Ocidental entre outras. Se por um lado ele não demonstra tanta força e brilhantismo como na Tetralogia da Influência, mesmo assim o livro merece ser lido nem que seja pela força inerente às grandes polêmicas que Bloom vem suscitando.

PS: Aconselho ao leitor que se sentir interessado pelas idéias de Bloom que leia a Tetralogia da Inflência, que está sendo republicada no Brasil em nova tradução (não sei se inferior ou superior à tradução anterior) e seus (também polêmicos) estudos sobre Shakespeare, nos livros Shakespeare: A Invenção do Humano e Hamlet: Poema Ilimitado.

2 comentários:

googler disse...

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Jerri Dias disse...

Eu li o livro e até concordo que Bloom puxa mais a brasa pro lado do judeus quanto aos profetas, dogmas e tudo mais, mas sempre me interressou muito essa total discrepância entre o Deus do Velho Testamento e do Novo.

Na verdade pretendia fazer uma crítica do livro no meu blog, mas emprestei ele pro meu sogro :S
Tentando achar ele na internet agora, pra poder escrever uma crptica minimamente decente.

Gostei bastante do blog.

Queria ter visto sua crítica de Watchemen, mas pelo que vi, não rolou. A minha não foi bem aceita pelo pessoal da comunidade do Orkut ;-)

Abraço.