quarta-feira, agosto 19, 2009

Resenha – Hyper Future Vision Gunnm

Autor: Yukito Kishiro
Editora Original: SHUEISHA
Ano de Publicação Original: 1991-1995
Editora no Brasil: JBC
Ano de Publicação no Brasil: 2003-2004
Número de Edições: 18



Hoje eu terminei de ler – pela 4ª vez – Gunnm e finalmente tomei coragem para resenhar essa que considero, junto com Akira de Katsuhiro Otomo, a maior obra de ficção científica já publicada em quadrinhos.

Meu primeiro contato com Gunnm foi logo da publicação de seu primeiro número pela JBC e o encanto não foi imediato, já que o primeiro número, apesar de ótimo, não me fisgou. Só percebi que estava diante de algo diferente no segundo número, que li afoito e embasbacado, a partir daí li todos os números subseqüentes dessa forma.

Gunnm se passa num futuro tecnológico onde o mundo é dividido em Zalem, uma cidade flutuante e a Cidade da Sucata, onde Zalem despeja seus dejetos e que trabalha única e exclusivamente para suprir Zalem. Nesse cenário é contada a história de Gally, uma garota sem memórias que tem sua cabeça (isso mesmo, só a cabeça) encontrada no lixão por Ido, um cidadão de Zalem que foi expulso e agora vive na Cidade da Sucata concertando Andróides. No mundo de Gunnm, quase todos os habitantes da Cidade da Sucata tem partes, ou o corpo todo, cibernéticas, precisando apenas do cérebro pra se manterem vivas, como Gally a protagonista.

Como Zalem não se importa com a segurança dos habitantes da Cidade da Sucata, não existe polícia, o mais próximo disso são os Guerreiro Caçadores que matam bandidos em troca de recompensas. Ido é secretamente um deles e Gally – que tem um poder de luta que ela não sabe como conseguiu, o Panzer Kunst, arte marcial Marciana desenvolvida especialmente para lutas entre Ciborgues – segue os passos de seu salvador e se torna também uma Guerreira Caçadora.

Esse seria o plot para todo um Mangá, mas ocupa apenas 5 volumes de Gunnm, que logo depois passa a abordar o Motorball, jogo que mistura corridas e lutas entre Ciborgues e que Gally acaba entrando. Novamente o autor não se fixa nisso e o plot muda mais duas vezes até, na edição 11 tomar sua forma definitiva com Gally como agente de Zalem na superfície. Todas as fases de Gunnm são incrivelmente densas e servem pra mostrar as relações internas da Cidade da Sucata e desta com Zalem, além de desenvolver claramente a personagem principal.

A melhor qualidade do Mangá é sua galeria impressionante de personagens, todos esféricos. Dificilmente Kishiro introduz uma personagem se não for desenvolvê-la completamente. Nesse ponto os melhores são os que – durante toda a trama – servem de antagonistas (nem sempre vilões) à Gally. O primeiro deles – que é tão marcante, que apesar de aparecer só nos dois primeiros volumes ecoa e se faz importante para Gally durante toda a trama – é Makaku, ciborgue com passado cruel que transpos todo o sentimento de dor que já sentiu para matar e destruir. Ele é utilizado de forma brilhante pelo autor, como primeiro oponente e rival de Gally, que também pela primeira vez mostra compaixão pelos motivos dele, marca característica da protagonista durante todo mangá.

O segundo antagonista de Gally – que volta depois em outra forma e se torna o ponto de divisão do mangá – é Zapan, outro Guerreiro Caçador que se sente humilhado por Gally e leva isso às últimas conseqüências.

O terceiro antagonista da trama é Jashugan o Campeão do Motorball, que ficará pra sempre como maior antagonista e rival de Gally, além de ser o único personagem que derrota a protagonista. Jashugan é um personagem brilhante que serve como rival e que também é mestre à partir do ponto em que a ensina – não só artes marciais – durante o combate.

O quarto antagonista é Den, líder do Barjack um grupo terrorista que quer derrubar Zalem do céu para por fim a dominação tirânica. Den se mostra interessantíssimo pois além de estar – na maioria das vezes – mais certo em seus motivos que Gally, o que inverte de forma sensacional o conceito de herói-vilão, é também um alter ego de Kaos, um personagem que possui o curioso poder da psicometria podendo reconstituir as memórias e habilidades de pessoas que usaram um objeto a partir do próprio objeto. Kaos se apaixona por Gally e passa a ser um grande aliado ao mesmo tempo em que é um grande antagonista como Den.

O quinto antagonista é o melhor personagem de todo o mangá e também o único que pode receber a alcunha de vilão. O Dr. Desty Nova é um cientista expulso de Zalem que veio para cidade da Sucata para fazer experimentos com humanos. Completamente insano, ele só acredita no conceito do Carma e foi o responsável por todos os antagonistas anteriores de Gally, transformou Makaku em um monstro, reconstruiu o cérebro de Jashugan, deu a Zapan os meios e o poder para destruir não só Gally como toda a cidade da sucata (o interessante nessa passagem é que ele também dá a Gally os meios para destruir Zapan, fazendo com que eles encarem seus Carmas) e é pai de Kaos e responsável pela personalidade oculta dele – Den – poder se manifestar livremente. Desty Nova controla os destinos da trama e é o único a conhecer o “Segredo do povo de de Zalem”.

O sexto e último antagonista é a própria Zalem que domina os destinos tanto dos cidadãos da Cidade da Sucata quanto de seus próprios cidadãos e que será por fim “desafiada” por Gally no poderoso final da trama.

Gunnm é um mangá muito constante o que faz com que todos os seus números – com exceção talvez do primeiro – sejam geniais, mas as edições mais impressionante são a penúltimo que traz não só o (suposto) confronto derradeiro entre Gally e Desty Nova como a revelação do “Segredo do povo de Zalem” que é tão impressionante e determinante para o real significado da trama que tenho que parar a leitura toda vez que leio (da primeira vez que li fiquei tão chocado que não consegui terminar de ler a edição naquele mesmo dia). A a última edição, maior (160 pgs) e que contém não só o desenrolar da trama, chegando à conciliação (e não à guerra) como solução do conflito básico superfície vs. Zalem pelas mãos de Gally, como também a revelação do passado da protagonista, incluindo uma maravilhosa contraposição da personagem com a sua personalidade passada – são completamente diferentes – por meio da mudança de uma pergunta que Gally se faz o mangá todo: “Por que eu luto?” A resposta costuma ser “por mim” e é diferente neste flashback (pra saber leiam).

Gunnm é tão perfeito e complexo que recomendo seriamente que leiam, mudará suas percepções da realidade de maneira que só obras centrais da ficção científica conseguem, como a Fundação de Asimov e O Jogo do Exterminador de Orson Scott Card.

PS: O autor Yukito Kishiro está reescrevendo o final de Gunnm em um novo mangá chamado Gunnm Last Order, que ainda não li. O motivo que ele deu é que não conseguiu escrever exatamente o que queria da primeira vez. Como já disse aqui, Gunnm é uma obra fechada, coesa e maravilhosa, duvido seriamente que o final pudesse ser melhor, o que levanta a velha discussão: Porque alguns autores nunca estão contentes com suas obras mesmo quando elas são unanimidades da crítica? De qualquer forma eu espero que alguém publique aqui essa “revisão”, de preferência a JBC que fez um trabalho maravilhoso com Gunnm, provavelmente o melhor que a editora já fez. E quando isso ocorrer podem ter certeza que vou resenhar aqui.

PS2: Essa resenha ficou gigante e mesmo assim não falei metade do que tinha pra falar, me concentrei nos personagens e não na trama, porque achei que assim contaria o mínimo de Spoilers possível e mesmo assim foram vários. Mas uma interessante discussão que poderia ser levantada é dimensão religiosa desta história, que se faz presente em todo o mangá. Um povo sem esperança abraça a religião sem nem pensar como consolo imediato e é – na minha opinião – um pouco disso que trata Gunnm, sem falar na óbvia relação entre a cidade espacial Jeru e a cidade de Zalem (liguem os pontos), que são conectadas pela “Escada de Jacó”. Vale ainda a dica do ótimo posfácio do autor na última edição. Por isso volto a insistir, leiam Gunnm!

PS3: Faz um tempão que eu não escrevo aqui... é que estou planejando uma atração nova pra esse blog, fiquem atentos que logo (espero) virá.

cotação:


Lombada das 18 edições brasileiras de Gunnm, formando o desenho da capa do 1º mangá, foto (mal) tirada por mim mesmo da minha coleção.