sexta-feira, outubro 14, 2011

Sobre culpas e corpos sem alma


Fico imaginando quando foi que comecei a distribuir pérolas aos porcos. Quer dizer, isso se considerarmos que tenho pérolas à distribuir e que porcos as recebam.

Bom, porcos devem ser, pois o que mais grunhe e rasteja na lama em busca de qualquer lavagem enquanto desdenha preciosidades?

Quando foi que comecei? Qual era o meu objetivo? Recuso-me a pensar que tenho tanto tempo livre e tão pouco dentro de mim que posso me dar ao luxo - um luxo dúbio - de desperdiçar-me com qualquer tipo de verme rastejante e patético. Mas afinal, não é o que faço?

No princípio o motivo era simples, deveria ser, não tenho dúvidas. Depois tudo se perdeu em um mar de comodismo e mediocridade. Tããão Brasil como diria Bandeira.

Temos em nossas mãos uma geração perdida, que se recusa a crescer e a melhorar, que se recusa a conhecer quaisquer coisas fora do alcance da viseira que lhes foi infligida. Uma geração que esqueceu de se rebelar contra o "Homem", uma geração sem nenhum rock'n roll. Se os heróis de Cazuza se auto-destruíram, os heróis dessa geração foram fabricados numa linha de montagem com data marcada para sumir. Um ciclo de vida menor que o de um replicante.

Estou falando de uma geração que ignora a cultura clássica, ignora a cultura pop, ignora a cultura das ruas, por Deus, ignora qualquer cultura e ri com dentes de chumbo à simples menção de qualquer leitura. Uma geração que só não desdenha do conceito de conhecimento porque não possui conhecimento nenhum para saber o que é um conceito. Uma geração de carnes mortas sem alma, bonecos sem nenhuma, nenhuma consciência do quanto dão pena.

É esta a geração que estamos formando, uma geração que não sabe nada, não quer saber nada e ainda acha graça do próprio desconhecimento. É esta geração que colocaremos nas ruas, e eu não me eximo da culpa!

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Perdoem o tom agressivo, ainda mais que há muito tempo não postava nada, mas isso estava entalado na minha garganta. Prometo que voltarei ao tom do blog em sequência.

6 comentários:

Cristine A. disse...

muito boa crônica. E perturbador conteúdo. Que fazer?

Ana Cláudia São Bernardo disse...

Também penso constantemente no que fazer para mudar essa realidade medíocre. Chega a ser desesperador.
Mas, não posso deixar de dizer, existem brilhantes, maravilhosas recompensas no meio do caminho que nos dão esperança de que, se a realidade não pode ser totalmente alterada, também não está completamente perdida.

Ótimo texto!

Luzsete disse...

É, realmente este é um tema que causa indignação. Mas, ouso, ainda, dizer que há boa vontade no meio de toda essa corja. Talvez as vozes devam ser mais intensas. Quem sabe um dia...

VHCC disse...

O único defeito do seu blog é ter um proprietário preguiçoso que posta de vez em nunca, porque os textos são ótimos. Cria vergonha na cara e vê se começa a postar pelo menos uma vez por semana, seu patife. Abraço.

Questão disse...

eu fiquei meio deprimido com essa verdade hauhua

mas cara existem jovens hoje em dia que se salvam,são poucos eu sei mas existem,foda eu ter 27 anos e me sentir um idoso nessa sociedade

Humberto disse...

Muito bom o blog conheci ele agora e gostei principalmente dessa postagem, me fez lembrar de Watchmen e das citaçoes de Rorschach vlw cara!