segunda-feira, janeiro 30, 2012

A urgência de Will Eisner



Quem me conhece há muito tempo sabe que sempre fui apaixonado por quadrinhos, desde pequeno minha mãe me lia histórias da Turma da Mônica e eu posso até dizer que aprendi a ler por essas histórias, o que já basta para definir os quadrinhos como parte essencial da minha personalidade e de quem sou. 

Todo mundo que tem a alma aberta para a nona arte tem seu hall de preferidos. Amo Alan Moore e Gaiman como todo mundo, assim como venero profundamete Otomo, Tezuka, Koike e Kojima, que abriram caminho pro que de melhor a narrativa oriental tinha pra nos oferecer. Cultuo com o mesmo fervor as obras de Goscini e Uderzo (e alguns outros grandes europeus, como Hergé e Bonelli) e talvez mais ainda a genialidade simplória das narrativas de Carl Barks e seus famosos patos. Sorrio abertamente me lembrando daquele Maurício de Souza do final dos anos 70, começo dos anos 80, que conseguia incutir um frescor infantil simplesmente genial às histórias curtas da Turma da Mônica (infantil mesmo, com tudo que uma criança tem de seu, tanto a graça, quanto a crueldade, esta limada das histórias da turminha nos últimos tempos), bem como me sinto impelido a chorar sempre que vejo o brilhantismo sem precedentes de Bill Waterson e sua investigação profunda do ser humano apenas utilizando um menino, um tigre e três quadrinhos. Posso citar aqui Laerte e Angeli, que são - na minha opinião - nossos maiores e melhores cartunistas, bem como Stan Lee criador das mais honestas HQs de super-heróis que o mundo já viu, tão simples quanto sempre deveriam ser.

Depois de mostrar tantos artistas que venero (e esquecer tantos outros), acho que posso dizer que Will Eisner é ainda superior a tudo isso, a todos estes, pelo simples motivo de que ele consegue ir o mais profundo possível na alma do leitor e na descoberta do que nos faz profundamente humanos. Ele consegue utilizar os quadrinhos para ilustrar tudo aquilo que vivemos e vemos e que tentamos esconder. Aquele ato falho, aquele fingimento, aquela dor, tudo isso está nas páginas de seus romances gráficos.

A primeira obra dele que li, já tardiamente, foi aquela que definiu os quadrinhos como obras de arte, Um Contrato com Deus, uma das obras mais humanas e mais devastadoras que já tive o prazer de ler. Após isso devorei rapidamente todo o resto de sua obra, talvez mais rápido do que elas mereçam. Pois elas merecem toda a atenção possível, elam precisam que o leitor interaja com elas.

Comecei esse texto sem nenhuma intenção, apenas a de divulgar da maneira limitada que me é possível o talento, a importância e a urgência de Eisner, porque ele não tem precedentes e nem concorrentes na nona arte. Ele não tem adversários na profundidade em que consegue agir. E eu diria que nem tem muitos iguais em quaisquer áreas da arte.

 Uma pequena amostra do quão profunda uma HQ pode ser

Eisner pede pra ser lido, para que todo o ranço que os quadrinhos se impuseram nos últimos anos se desfaça no ar, para que abram seus sentidos para uma verdadeira e profunda investigação humana.