quinta-feira, dezembro 05, 2013

O que queres?





O que queres?
Um beijo ou uma ilusão,
Um amor ou uma traição,
A verdade ou a mentira?
A verdade é que eu te dou um beijo com que resta do meu amor,
Mas nossa história já é ilusão, vivemos na mentira, pois já houve traição.
Então, o que queres?
Esconder a verdade e viver na mentira
Ou contar a verdade e esquecer a mentira.

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Depois de um bom tempo sem escrever a Daniela Matono volta com um pequeno poema sobre amor, confiança e relacionamento. Espero que gostem.

quinta-feira, novembro 28, 2013

A filha da vizinha

Como já ficou tradicional por aqui, na última quinta-feira do mês publicamos um texto de um autor novo e o desta quinta é muito especial, no caso, minha mãe. Silvia Lúcia de Oliveira me criou sempre lendo pra mim e cultivou em mim um gosto pela literatura que moldou todo o meu futuro. De uns tempos pra cá ela resolveu voltar a escrever e um dos contos que ela criou é este abaixo, um interessante conto, com linguagem bem coloquial, bom-humor e um delicioso clima interiorano. Espero que gostem.





Não é querendo se valer da vida alheia, mas tem gente que é louco de pedra né? Onde já se viu uma pessoa que tendo uma neta bate nela com rabo de tatu? Isso é deboche, por certo! Educar é coisa delicada, que se faz “devagarinho”, pensando, se atendo aos detalhes. Mas não, o que se fez é partir prá ignorância e logo cedo já enche de bolacha a cidadã. Por causa desse jeitinho tosco de lidar com a realidade da menina, logo de cara, devia ter ganhado uma tarja na testa com BESTA escrito bem grande e, em seguida, excomungada de ser gente. Acontece malandro, que aqui, no subúrbio, a vida é outra, aqui nem bebezinho tem sorte. Escuta, não to generalizando, de maneira nenhuma, não quero apodrecer na cadeia não meu chapa, só to mesmo é no desabafo, a crítica, deixa ela lá para os repórteres. Bem, mas já que você insiste, vou te contar como tudo aconteceu: 

A menina sentia uns anseios, um tremor endoidecedor, coitada, sabe como é, menina na adolescência, nem entende muito da onda (e que onda meu camarada). Bonita ela não era não, mais do tipo Raimunda, entende (feia de cara...), mas era simpática, esforçada. Aí topou com o primeiro moleque agastado, sabe como é... O bicho é danado que nem sei o que. Pronto, foi o que bastou para o bicho pegar. O malandro arrastou a menina, muda, lá para o finalzinho do quintal e lascou-lhe um beijo dos grandes, apalpou e roçou como pode e marcou de novo para o dia seguinte porque a coitada tava desmaiando ali mesmo, pernas trêmulas, zonzeira, tudo que os tais de hormônios podem fazer com uma bicha. Aquilo virou um ritual que com o tempo foi se aperfeiçoando. Para a guria era muito sério, mas o menino, como qualquer outro, pulou fora já - já. Dali a pouco os meninos foram passando um a um e ela nem se apercebia da troca, tamanha era a carência, que muitos, inclusive a avó, chamou de sem-vergonhice. Quando a guria se apercebeu já estava na boca do povo e de ponta cabeça fugindo de si mesma, negando até a morte. Sabe que sempre tem uma filha da... que, sei lá, se é de inveja porque tem vontade reprimida ou de maldade mesmo ou até de burrice de não prever o pior, que chega e conta para a velha. Aí, sujou, a menina que sempre foi enjeitada, cobrada até do prato de comida que comia, foi colocada contra a parede e a pancadaria tomou forma. Não tinha defesa que desse jeito, levou cada pancada na orelha que ficou surda por dias e o rabo de tatu cortou bem as pernocas dela. Bom prá finalizar e encurtar a história, como a vida faz a gente se acostumar com tudo, a menina também se acostumou a apanhar, mas parar com a coisa, ah, isso não parou não senhor. Só sei te dizer meu chapa que a última surra resultou nisso aí que tu tá vendo e, olha, tira o chapéu que o caixão vai passar.  


Silvia Lúcia de Oliveira é advogada, escritora, professora, mãe de três (quatro se contar um passarinho) e completamente viciada em séries, coisa patológica mesmo.

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Lembrando sempre que podem mandar seus textos para serem publicados aqui no blog. O nosso e-mail é hanatirouprimeiro@gmail.com. É só mandar o texto, uma foto para ilustrá-lo, uma foto para o perfil e um pequeno resumo.

quinta-feira, novembro 21, 2013

Ascensão





I

-Cof, cof, cof.

Fez-se silêncio. Era o Sr. Garner quem tossira, e quando ele tossia, era porque queria atenção, e todos sempre davam atenção ao Sr. Garner.

-Não sei se concordo com isso – disse o poderoso gangster. -Como eu ainda mando aqui, acredito que quando eu não concordo com algo, minha opinião prevalece - continuou Garner. -E eu realmente não concordo com isso – concluiu com ar de triunfo.

Mal acabara de falar e uma espalhafatosa risada, foi ouvida. Ela vinha do fundo da sala. Vinha de John Mitchell, um novato.

-Do que esta rindo Sr. Mitchell – perguntou o velho gangster com desdém. -Não me lembro de ter dito nada de engraçado - continuou, com a raiva estampada na face.

Mitchell sorriu. -Mas disse velho, tudo o que você diz é engraçado.

Ninguém podia acreditar no que ouviam, como podia Mitchell um novato, contrariar Garner, o chefão?

-Desde quando você manda aqui Garner? Você nunca mandou em nada seu velho patético - concluiu Mitchell com prazer.

Garner estava roxo de raiva e via-se no seu rosto que ele finalmente havia perdido a sua famosa classe. -Cale a boca, seu moleque, você não sa...

Três estrondos ecoaram na sala, todos viram Garner cair e todos viram Mitchell guardar a arma no casaco e caminhar até Garner. Todos viram, mas ninguém acreditou.

Mitchell parou em frente Garner e o olhou nos olhos enquanto ele agonizava. Mitchell esperou Garner agonizar e morrer para sair pela porta lateral sorrindo e assoviando uma velha canção.

O silêncio dominava a sala. As pessoas que lá estavam haviam presenciado a queda de Garner e a ascensão de Mitchell. E alguns deles presenciariam também a sua queda. 

    
II

Os carros passavam em alta velocidade, pela marginal enquanto um estranho homem os observava de um posto de gasolina. O homem pagou o frentista, vestiu seu sobretudo preto, comprido demais para sua baixa estatura e saiu com seu carro, um velho corcel vermelho.

Quando o carro já havia se afastado um ou dois quilômetros, ele olhou para trás com um sorriso cínico nos lábios e acelerou o carro. Um minuto depois o posto de gasolina explodiu.

Dentro do carro tocava uma velha canção. “Knowing she's okay alone, and there's no messing. She's a lady.”

O homem sorriu e pensou, “curioso estar tocando isto. O Mitchie parece estar em todo lugar, aquele maldito!”


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Depois de uma semana sem postar, por conta de esquecimentos e do feriado, voltamos com uma antiga ideia minha de escrever uma história policial. Sempre adorei o gênero e escrevi esse trecho a mais de 10 anos, claro que revisei e mudei MUITAS coisas antes de postá-lo! a minha intenção é continuar a história aqui, talvez uma vez por mês, vejamos como se desenrola.

PS: A música de Tom Jones é pra dar o clima da história, além de ser sensacional.


quinta-feira, novembro 07, 2013

Top 5 JRPGs ou Procure um emulador IMEDIATAMENTE



Adoro videogames, sempre adorei, mas tenho um especial apreço por 2 tipos de jogos, plataformas (que ganharão uma lista logo logo) e JRPGs. Estes dois estilos formam a maior parte de tudo que jogo. Pensei em fazer um Top 10, mas resolvi fazer apenas 5 e falar bem detalhadamente de cada um deles. Vamos tirar alguns defuntos da sala antes: primeiramente, não acho que Zelda se encaixe na categoria, apesar de idolatrar a série, portanto, sem Zeldas. A minha ideia aqui é falar de jogos que sejam bem acessíveis a todos vocês, portanto privilegiei jogos que vocês podem facilmente encontrar roms e jogar em emuladores. Há apenas uma exceção na lista, mas é um jogo de PS2 e Wii, então é bem fácil de ter acesso. Vamos pro número 5.


5 - Final Fantasy Tatics Advance
Plataforma: Gameboy Advance
Equipe criativa: Yuichi Murasawa; Yasumi Matsuno
Trilha sonora: Hitoshi Sakimoto; Kaori Ohkoshi; Ayako Saso; Nobuo Uematsu




Começamos com um verdadeiro sugador de vidas! A série tatics, spin-off da série principal, começou no Playstation, mas me conquistou realmente na versão de GBA. A série tatics traz jogos totalmente focados no combate, existe uma história, ela é inclusive bem interessante, mas as batalhas são o verdadeiro brilho do jogo. Você anda com seus personagens algumas casas, como em um jogo de tabuleiro e os ataques deles têm alcances variados bem como possibilidades variáveis de acertar dependendo da proximidade do adversário, do terreno e do lado que o adversário está virado (é muito mais fácil acertar um adversário virado de costas). Cada batalha dura pelo menos uma hora e quando a gente vê o dia todo já foi embora. Vale muito a pena e emuladores de Gameboy Advance são facílimos de encontrar e rodam até em lata de goiabada. Existe uma continuação para DS, tão boa quanto que vale a pena conferir também.



4 - Okami
Plataformas: Playstation 2; Wii; Playstation 3
Equipe criativa: Hideki Kamiya; Atsushi Inaba; Hideki Kamiya
Trilha sonora: Masami Ueda; Hiroshi Yamaguchi; Hiroyuki Hamada; Rei Kondo; Akari Groves




Okami é o jogo que comentei que era mais recente, portanto, mais difícil de emular. No entanto, tem para tantas plataformas que é bem fácil de encontrar. É o mais diferente dos títulos aqui presentes. Não tem batalhas aleatórias e nem  golpes escolhidos em um menu, sendo necessário fazer os golpes com o analógico do PS2 ou com o Wiimote. Por isso mesmo acho a versão do Wii a melhor, já que a ideia de se pintar os poderes na tela fica muito mais interessante e fácil de se realizar.

A jogabilidade de Okami é excelente e inventiva, sua história é interessante e bonita, trabalhando de maneira criativa mitos japoneses. Mas o que se destaca aqui é a direção artística do jogo. Sério, Okami é o jogo mais deslumbrante que eu já vi na minha vida. Um cell shading espetacular, com paisagens etéreas sempre lembrando pinturas e desenhos tradicionais japoneses. O único ponto fraco do jogo é que ele é muito fácil, eu nunca morri em nenhuma parte do jogo. Mas a experiência é tão boa que realmente preciso recomendá-lo. Nesta lista é o título mais desconhecido, sendo uma pena que mais gente não tenha jogado.



3 - Pokemon Gold/Silver/Cristal
Plataforma: Gameboy Color; alem de um remake para DS com o nome de Heart Gold/Soul Silver.
Equipe criativa: Satoshi Tajiri; Takehiro Izushi; Takashi Kawaguchi; Tsunekazu Ishihara; Ken Sugimori; Toshinobu Matsumiya; Kenji Matsushima
Trilha sonora: Junichi Masuda; Go Ichinose




Não é surpresa pra ninguém que sou muito MUITO fã da série pokemon. Na minha opinião o melhor jogo da série é o X/Y, que acabou de ser lançado (podem ler uma pequena resenha minha desses jogos aqui), mas como a única maneira de jogar X/Y é tendo um 3DS (excelente investimento alias) não se encaixa na proposta de facilitar pra vocês jogarem. Então, antes de X/Y serem lançados, os melhores jogos da franquia eram o trio Gold/Silver/Cristal de gameboy color e eles são facílimos de se achar na internet, além de emuladores de gameboy rodarem em qualquer porcaria de computador. GSC trazem 251 pokemons (os monstrinhos da primeira e segunda geração) e é possível se explorar as regiões de Jotoh e Kanto, sendo os únicos da franquia toda em que é possível mudar de continente durante o jogo! Estes também são os primeiros jogos onde há a diferença entre dia e noite, com diferentes pokemons em cada período e diferenças também em algumas evoluções dependendo do período do dia (Eevee, por exemplo, só evolui para Espeon treinando de dia e só evolui para Umbreon treinando a noite). Foram os jogos que introduziram os tipos metálico e noturno, últimas mudanças na mecânica dos tipos antes de X/Y (que introduziram o tipo fada). Outra importante adição feita nesses títulos foi a possibilidade de cruzar pokemons, os sexos dos bichinhos foi adicionado aqui também. A história não é nada demais, como em qualquer jogo de pokemon, mas o jogo é realmente bom, muito viciante e se não o fizer ficar fã da franquia, nada mais fará!

Existe um remake feito para DS que tem tudo dos jogos originais e uma infinidade de adições. Se puderem joguem essas versões, mas emuladores e roms de DS são mais pesados e complicados de rodar.



2 - Final Fantasy VI
Plataformas: Super Nintendo; Playstation; Gameboy Advance; Wii; Playstation 3; 
Equipe criativa: Yoshinori Kitase; Hiroyuki Ito; Hironobu Sakaguchi; Hiroyuki Ito; Tetsuya Takahashi; Kazuko Shibuya; Hideo Minaba; Tetsuya Nomura
Trilha sonora: Nobuo Uematsu \o/




Claro que teria que ter uma adição da série clássica de Final Fantasy na lista. Não foi nada difícil de escolher, o VI é disparadamente o melhor de toda a saga. Tem gráficos que envelheceram bem (final de geração de Super Nintendo, com excelente uso do Mode 7); sistema de jogo bem interessante (possui as chatinhas batalhas randômicas, mas cada personagem tem modos diferentes de batalhar, o que torna as lutas muito divertidas); a melhor história de qualquer RPG eletrônico já feito e o melhor grupo de personagens de toda a série. Terra, Lock, Celes...nossa, cada um deles têm uma história de vida, um passado, um desenvolvimento brilhatemente conduzido. Mas a cereja do bolo é Kefka. Kefka é o MELHOR vilão da história dos games, sem exageros. Sephirot é uma moça chorona perto de Kefka. Não falarei nada para não dar spoilers, mas por favor, joguem esse jogo, fará bem para suas cabeças contaminadas por CODs e LOLs da vida!



1 - Chrono Trigger
Plataformas: Super Nintendo; Playstation; DS; Wii; Playstation 3; Android; iOS
Equipe criativa: Takashi Tokita; Yoshinori Kitase; Akihiko Matsui; Kazuhiko Aoki; Hironobu Sakaguchi; Akira Toriyama; Masato Kato; Takashi Tokita; Yoshinori Kitase; Yuji Horii
Trilha sonora: Yasunori Mitsuda; Nobuo Uematsu; Noriko Matsueda




E chegamos ao previsível número 1. Chrono é meu jogo favorito, figura com frequência na lista de melhores jogos de todos os tempos, muitas vezes no primeiro lugar. Mas o que faz deste clássico de Super Nintendo tão especial assim? É uma junção de vários elementos. Na época de sua criação juntou-se um time de all-stars das duas maiores rivais do mundo dos RPGs, a Square e a Ennix. Esse jogo meio que foi uma prévia da fusão que aconteceria entre as duas empresas. O líder do desenvolvimento foi Yujii Hori o criador de Dragon Quest e o desing dos personagens é de Akira Toriyama, todo poderoso criador de Dragon Ball. O gameplay é incrível, não temos batalhas randômicas, todos os inimigos podem ser vistos no cenário e evitados. O grupo é de 3 personagens e não 4 como em Final Fantasy e existem os ataques em dupla e em trio! Esses ataques funcionam da seguinte maneira, quando se luta muito com um trio os personagens vão aprendendo ataques conjuntos. Esta é uma maneira genial de se jogar com todos as personagens, pois é preciso combinar times para conseguir ataques novos e mais fortes. A história é muito boa, tratando de maneira brilhante a viagem no tempo, fazendo com que o jogo possua 13 finais diferentes, dependendo de em que período do tempo se escolhe enfrentar Lavos, o grande vilão.

As personagens são um show a parte, muito carismáticas, formam - junto com Final Fantasy VI - o melhor grupo de qualquer RPG. O destaque aqui fica pra Frog, um cavaleiro medieval transformado em sapo que é a personagem mais carismática que já vi em qualquer jogo! A trilha sonora de Chrono Trigger é uma obra prima, totalmente épica e memorável... Nossa, são tantas qualidades que fica difícil de elogiar tudo!

Existem algumas diferenças entre as versões. A versão do PS1 é a mesma do Super Nintendo com a adição de algumas cut scenes em anime, mas é prejudicada pelo infinito loading. A versão mais recomendada é a de DS (a de iOS é a mesma de DS, obviamente sem os controles físicos), que é igual a do PS1, mas com um final a mais e sem loading! O cartucho é super difícil de achar e meio caro, então é provável que vocês joguem mesmo a versão de Super Nintendo, que é muito mais acessível por emuladores. Se tem um JRPG, um só que vocês precisam jogar na vida, é esse, vão sem medo!  

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Como vocês puderam perceber, no texto dessa semana eu quis trazer alguns jogos que adoro e que algumas pessoas talvez não tenham jogado. Espero que cada pessoa que leia pelo menos pense em jogar algum deles. Semana que vem voltamos com textos literários!

quinta-feira, outubro 31, 2013

Os Desenhos que a Chuva Fez


Hoje temos o nosso terceiro texto de convidado, Maciel T. que enviou seu texto para o nosso e-mail (veja lá embaixo como fazer para enviar o seu). O texto de Maciel é um conto de reminiscências muito delicado e bonito. Em um estilo que faz lembrar imediatamente o Conto de Natal de Dickens, mas que tem muito de Tchékov e da sutileza da literatura moderna russa. Um belo achado para o acervo do Han!




Lá fora está caindo a pior tempestade dos últimos tempos. Os trovões chegam a me ensurdecer momentaneamente. Eu estava aqui, sem animo para fazer nada, sentado em minha poltrona, observando os pingos de chuva que surgiam no vidro. Já era quase meia noite.

Às vezes, os pingos de chuva se formavam em figuras diante de meus olhos, como se fossem delírios malucos, um atrás do outro, tentando me fazer adormecer. Todas aquelas figuras lembravam algo do meu passado. Algumas delas me faziam viajar na memória de modos mágicos, me permitindo sentir novamente emoções e sensações do passado.

A primeira que vi naquela noite era um pinheiro. Uma arvore jovem e silenciosa, no solo coberto de neve. Era natal. Eu e meus irmãos fazíamos um boneco de neve. Um primo estava passando as férias conosco.

-Vai buscar uma cenoura para o nariz dele! Estamos quase acabando! Ele está enorme!

-É para já!

Nos divertíamos muito brincando na neve, fosse inventando um boneco de neve, ou fazendo uma pequena guerra de bolas de neve em nosso quintal.

Naquele dia, fiz o máximo que pude para ficar acordado a madrugada inteira, e ver Papai Noel chegar com os presentes, lhe oferecer leite com biscoitos, e quem sabe lhe ajudar a entregar os presentes nas casas dos meus amigos. Em vão. Não passei das 11 horas da noite de natal acordado.

Mesmo assim, aquele não deixou de ser um natal incrível, e não deixamos de nos divertir. Naquele dia, sentimos o que significava o nascimento do menino Jesus. Éramos crianças, não precisávamos compreender. Apenas sentir.

Mas agora, todo aquele sonho era só um desenho feito pelos pingos de chuva em minha janela, e que se desfazia aos poucos, formando-se em outra coisa.

Os pingos de chuva agora formavam outra imagem em minha janela. Algo que parecia ser um rosto. Era Clarice. A menina Clarice. Aquele rosto lindo que compartilhou comigo meu primeiro beijo.

Nada mexe mais com os sentimentos de um garoto do que um primeiro beijo. Tínhamos 13 anos na época.
Voltávamos para casa do colégio juntos, como todos os dias. Mas naquele dia, Clarice não parecia estar muito bem.

-Você está bem, não está?

-Estou. - disse.

Em nosso caminho, atravessávamos uma praça.

-Não quer sentar em um banco e descansar um pouco antes de continuarmos? Ainda falta um pouco!

-Eu sei, mas... Eu aguento.

-Isso não foi um pedido. Não vou deixar que ande toda essa distancia assim.

-Mas eu estou bem! É sério! Está tudo bem!

-Tem certeza?

-Só... Não me deixa sozinha, por favor!

- O que?

Clarice me abraçou.

-Eu não quero que me deixe sozinha, inferno!

-Eu...

Sem pensar, ela me beijou. E, de repente, nada mais importava. Tudo que importava era o que estava sentindo. O calor de seus lábios. A maciez de sua pele. Aquela loucura sadia.

De repente, desmaiou.

Dias depois, fui visitar ela no hospital. Ao me ver, olhou bem fundo nos meus olhos.

-Por favor, diz que foi real! – Pediu-me, num murmúrio.

E de novo, tudo voltou a ser o rosto de Clarice, desenhado com gotas de chuva em minha janela. Há anos que eu não a via. Muitos anos.

De repente, outro desenho se fez em minha janela. Era um passarinho. Era a pequena Sininho, um papagaio que meus pais me trouxeram, depois de eu insistir um mês inteiro por um cachorrinho.

-Você acha que isso se parece com um cachorro? – Eu disse, irritado.

-Agradeça a Deus por ele não ser um porco! - Disse minha mãe.

-Um porco se parece mais com um cachorro que esta bola de penas! - Resmunguei, sem resposta.

Minha mãe partiu para a cozinha, para fazer o almoço.

-Você é capaz de me provar que é melhor que um cachorro? - Perguntei ao bicho, que até então só me observava.

-Sininho quer bolacha! – Respondeu a penosa. Então se tratava de uma fêmea! Incrível!

-Sininho é seu nome?

-Sininho quer bolacha! - Repetiu, em um tom ligeiramente mais irritado que o anterior.

-Bolacha? É isso mesmo?

-Sininho quer bolacha, inferno! – Pediu, em tom de protesto.

Fui para a cozinha pegar um biscoito de leite para a penosa. Sininho começou a comer com vontade. Parecia que não comia há dias. Quando terminou, me olhou bem nos olhos e falou:

-Sininho te ama!

-Sininho... Sininho... Nome esquisito!

-Sininho quer bolacha!

-Quem te deu esse nome?

-Sininho quer bolacha!

-Você só pensa nisso?

-Sininho quer bolacha, inferno! – De novo em tom de protesto.

Aquele seria um dialogo dificílimo.

De repente, vinha uma luz da janela. Havia amanhecido. Talvez eu devesse ter dormido durante os meus delírios. De repente, o sol iluminava meu rosto, alegrando-me, e deixando talvez uma evidência de uma possibilidade de reviver tudo aquilo que se passou e já morreu, por meio de cada lembrança que já não se pode mais apagar...



Maciel T. tem 21 anos, é escritor e também canta nas horas vagas (o que explica porque todos os vizinhos se mudaram), sonha em ser professor, dar aula para crianças pequenas, e um dia quem sabe ter as suas próprias (de preferência com uma mulher). É louco de pedra (o que já estava fortemente implícito em "sonha em ser professor") e um pouquinho (mas só um pouquinho, quase nada) antissocial nas horas vagas!

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Voltamos com nossa série de autores inéditos, como sabem, sempre nas últimas quintas-feiras do mês. Espero que tenham gostado do delicado texto do Maciel. Caso queira participar enviem seus textos para hanatirouprimeiro@gmail.com. Contamos com vocês!


quinta-feira, outubro 24, 2013

Rosa sangrando




Não sei quanto tempo durou, mas vi a minha morte em câmera lenta, talvez por influências dos filmes. Mas o mais engraçado foi que, para não me abalar, pois morrer já é um grande choque, vi a cena em forma de desenho: ele me atacou com uma espada de samurai e ao retirá-la lentamente senti meu corpo cair para o outro lado. A dor foi lacerante no começo, mas depois ela foi embora, assim como minha vida. Agora tento entender melhor a cena, e nem sei dizer se eu realmente morri com essa espada de samurai ou se foi minha cabeça que inventou para amenizar a dor da minha morte. Ainda lembro do meu corpo cartunizado deitado no chão: acho que o desenhista poupou os seus lápis coloridos, pois meu corpo era apenas branco, preto e cinza. O único sinal de vida era a poça de sangue saindo do que antes era eu. “Mais uma rosa sangrando’’ - ouvi essa frase em algum momento da minha transição e é assim que eu prefiro imaginar meu fim.

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Um dia a Daniela chegou para mim e disse: "sonhei com a minha morte"! E depois ela escreveu um texto sobre o sonho. É este que veem agora. Aproveitem. Ahh, a montagem amadora é uma tentativa minha de transpor o sonho, a ideia foi da Daniela também, mas a falta de talento é toda minha.

quinta-feira, outubro 17, 2013

Se eu soubesse...




Se eu soubesse sempre o que fazer
Se eu soubesse sempre o que dizer
Se eu fizesse sempre certo
Se eu fosse sempre justo
Se eu conduzisse o barco, se eu guiasse a vida, se eu limpasse a alma
Se eu fosse melhor...

Eu queria ser; queria pensar
As coisas certas nas horas certas
Os discernimentos
As respostas claras
Os percursos límpidos
Os ombros leves

Se eu fosse melhor
Se eu fosse maior
Se eu fosse o meu ideal...

Alguém é; é possível?

Caminhos como horizontes
Vemos a linha, clara
Inalcançavel...
Seguimos ou construímos morada à beira do caminho?

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Escrevi este poema algum tempo atrás e coloquei no facebook, mas como as coisas por lá são muito transitórias, achei que valeria a pena colocar no blog, onde pode ser sempre lido. Pessoalmente gostei de escrevê-lo, espero que tenham gostado do resultado.


quinta-feira, outubro 10, 2013

Resolução



"It's better to burn out than to fade away" 
Neil Young



Acordei com sono, é algo recorrente nos últimos tempos. Não importa o quanto eu durma, eu sempre acordo com sono. Estou ficando um pouco cansado disto, disto de tudo o mais. Não tomo uma providência porque tenho preguiça. Alias, acho que a preguiça é a única coisa maior do que o sono na minha rotina.

Outro dia eu acordei - com sono - e não pude me levantar. Parecia-me errado que eu me levantasse. Fiquei vinte minutos olhando o meu teto. Está sujo nos cantos, meio enegrecido. Quando consegui olhar as horas, já havia passado do horário da minha entrada no trabalho. Dei de ombros. Dormi até a tarde. Acordei com sono. Diabos!

Pensei em ir ao médico, procurar me tratar, mas sabem, foda-se o médico, fodam-se todos os médicos, maldita máfia branca! Não vou sair de casa, me cansar por nada! Pra quê? Já sei o que vou ouvir! Eu sei das coisas! Eu vejo coisas que mais ninguém vê! Sim, não porque não existam, mas sim porque ninguém as nota. Sim, sempre vi.

Uma vez - no tempo do colégio - fui com minha classe a uma competição em outra escola. Como nunca joguei nada fiquei sentado nas arquibancadas. Como nunca tive amigos fiquei sentado no canto das arquibancadas, sozinho. Como sempre fui curioso, fiquei olhando os alunos da outra escola. Foi aí que notei essa menina, era pequena, frágil, assustada. Aterrorizada de conviver com os outros alunos, tremia só de passarem perto dela. Vi os meninos da escola dela passarem por ela e baterem os pés, ela tremia e quase convulsionava em cada batida. Um fez uma careta e gritou "bu", ela tremeu e cobriu a cara, senti suas lágrimas, mesmo sem vê-las. O grito ecoou no meu ouvido e de certa forma nunca deixei de ouvir este ruído. Se fiz alguma coisa? Claro que não, apenas fui embora com a minha classe no final e nunca mais vi a menina.

Mas chega, chega! Preciso levantar da minha cama e ir trabalhar, não posso perder outro dia! Não posso perder meu último dia de trabalho. Decidi que é melhor explodir do que definhar e já comprei minhas balas! Será um dia inesquecível!

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Fazia um bom tempo que eu não escrevia um conto, e escrever contos para mim nunca foi tão natural quanto escrever poemas. Mas já há algum tempo venho encucado com esse verso de Hey hey my my / My my hey hey do Neil Young e me baseei nisso para escrever o texto. Procurei tornar o narrador-personagem em um gauche, mas ele naturalmente se tornou muito mais perturbador que isto. A foto me pareceu escolha natural. Espero que gostem.


quinta-feira, outubro 03, 2013

As palavras





Às vezes as palavras são tão duras que machucam não só quem está ouvindo, mas também quem fala. Você ouviu, você sentiu, eu sei disso, mas elas foram a gota d’água de algo há muito tempo guardado. Uma ilusão, algo que eu admirava e foi retirado de mim. Não foram palavras em vão, não foram para te machucar e sim para parar de me machucar. Eu te esfaqueei com a mesma faca que estava gravada no meu coração. E agora, o que fazer com essa faca? Faca suja com nossos sangues....

Minhas feridas cicatrizaram? E as suas? Ou continua saindo sangue de palavras? As palavras: vermelhas e vivas!!! Pequenas gotas que ardem no nosso corpo e que mesmo se cicatrizarem sempre serão lembradas, pois somos o que fizemos, somos nosso passado, nossos acertos e erros.... E eu te pergunto: suporta essa cicatriz? Suporta saber que você fez essa cicatriz em mim? Mais uma na história da minha vida... na tua, na nossa vida!

Palavras: arma, sangue, ferida, cicatriz... Palavras, uma das maiores armas que existem no mundo: ela pode te destruir no mesmo segundo que ela é lançada. Palavras, apenas palavras!

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Depois de um tempinho sem publicar nenhum texto (por conta das comemorações do blog) a Daniela Matono volta com um texto bem triste e áspero, tratando do significado e do poder das palavras. Espero que gostem.


quinta-feira, setembro 26, 2013

Grãos de Areia



Dando prosseguimento à nossa campanha de descobrir e publicar autores novos, o segundo participante é meu amigo Olavo Lima! O Olavo, também conhecido como Questão nas profundezas da internet, é um velho amigo meu de fóruns de discussão de quadrinhos e se mostrou aqui também um excelente contista policial. Apreciem este conto que foge bastante do tom normal daqui do Han!

PS: Lembrando que ainda podem mandar seus textos para o email do hanatirouprimeiro@gmail.com. Os textos de convidados vão ao ar sempre na última quinta feira do mês.






Toda história normalmente começa com algo chocante, algo que marque o início, algo que crie simpatia. Mas não a minha. A minha começa com um grão de areia, nada de muito valor, mas como tudo que podemos possuir, facilmente passa despercebido. Grãos de areia estão em todo lugar, na praia, na comida, no tempo, grãos tão pequenos que ninguém pode ver.

Amanhecia. Era mais um daqueles dias que você acorda suado e todo quebrado, como se balançasse a noite toda tentando pateticamente entrar em seu sonho, pois a vida é cruel demais para ser verdade. Eu faço o que sempre faço todos os dias: acordo, olho para o relógio para ver se posso dormir mais ainda, depois, quando não posso mais, escolho a roupa e a levo ao banheiro, tomo banho e visto no banheiro. Algumas pessoas levam a roupa ao quarto, mas não eu. Eu me visto no banheiro. Deve ser algum trauma de infância.
Ao sair de casa chego ao trabalho, olho para a janela e vejo a praia. De todos os lugares que olho eu posso ver a praia: grãos de areia em toda parte. Meu chefe se aproxima de mim, seu olhar indica que ele não está feliz.

- Venha cá, seu miserável, mova-se.

Eu obedeço, mas tenho que admitir: gostaria de enfiar a cabeça dele na janela, mas eu me controlo, não me lembro porque, talvez por dinheiro. Eu olho para ele como uma criança levando bronca daquele professor de matemática que diz que você conversa demais.

- Olhe, eu sinceramente estou desapontado, você sabia quem eram aqueles guris?

Ele me encarava achando que eu fosse mentir, mas eu sou idiota: eu nunca minto.
- Sim, eu sabia.

Seus olhos fixam em mim tentando entender como alguém pode ser tão estúpido ou ingênuo.

- Eles eram a merda dos filhos do governador. Você entende isso? Você não pode sair por ai prendendo eles. Se os guris correram demais ou estavam bêbados, o problema não é meu e nem seu.

Eu olho fixamente em seus olhos e o desafio.

- Por quê?

Ele se espanta como não vejo em anos. Valeu a pena ter esmurrado aqueles playboys.

- Como “por quê”? Merda, se o pai dele quiser, ele nos tira daqui e você perde seu emprego.

Ah! É mesmo! Esqueci de dizer. Meu emprego é de investigador de polícia. No Brasil não existe esse lance de detetive, não do modo que as pessoas pensam, a maioria das vezes nos somos um bando de manes tentando fazer algo de útil e nos sentimos um lixo.

- Olha, você vai ficar suspenso. Pela primeira vez em toda minha vida, depois de ser cuspido, esmurrado, humilhado, pela primeira vez eu me exalto.

- Porra! Como assim eu vou ser suspenso? Aqueles filhos da puta estavam bêbados, pegaram uma garota de 14 anos e estavam quase violentando ela!
Ele simplesmente fala:

- Você pode provar isso?

- Tem o boletim de ocorrência.

- O boletim só tem o que eles quiseram que tivesse. Os pais da menina não prestaram queixa. É sua palavra contra a deles, agora suma daqui.

Eu pensei: talvez ele estivesse certo, talvez eu fosse um idiota, talvez a garota quisesse estar com eles, como todas essas meninas de bairros pobres, ela só quisesse fazer algo para que pudesse se sentir viva, ou fosse uma vadia qualquer. Hoje não há mais romantismo. Isso me deixa puto! Queria que a vida tivesse mais sentimento, mais vida. Bom, pelo menos vou tomar um coco na praia.

Quando ando com meu carro eu vejo os dois moleques de novo. Sei que não devia segui-los, é encrenca, mas eu não escuto minha consciência. Eles vão a uma área desolada da cidade, não existe quase nada, apenas uma praia e um bairro onde quase ninguém anda. Anoitece e eu estou aqui ainda, quando alguém fala comigo:

- Hei, moço!

Levo o maior susto. É uma garota, a droga de uma garota, ela não devia ter mais de 13 anos.

- Putz, está muito tarde. Você não acha que é perigoso estar aqui?

- Ah! Liga não! Vivo aqui. Sempre acontece algo legal.

- Seus pais não vão ficar preocupados?

Ela simplesmente sorri e diz:

- Você é engraçado. Minha mãe está dormindo agora. Meu pai... Bem... Ele não se importa muito... Mas, me diz, você está numa tocaia, tio? Que nem naqueles filmes antigos?

- O que a faz pensar que estou em uma tocaia? Se estiver, o que diabos você tá fazendo aqui?

- Você tem cara de policial.

- Cara de policial?

- Policial brasileiro, tipo, fora de forma, com cara de durão, do tipo que odeia tudo ao seu redor. Eu adoro contos policiais, vivo lendo, meu tio tem um monte.

- Mas espera ai! Eu não estou tão fora de forma assim!

Eu fico olhando para a minha barriga e fingindo para mim mesmo que ela está errada.

- Hehe. Bom, mas para que serve a garrafa vazia?

- Garota, você não acha que está chamando atenção?

- Eu? Eu cuido das coisas por aqui, eu não chamo atenção.

- Onde fica sua casa? Vou te levar, entra ai.

- Obrigado, mas tipo, para que serve a garrafa?

Eu desconverso, a levo para a casa, penso em deixar tudo para lá e voltar para o meu caminho, quando sou fechado por um carro. Sinto meu peso ir todo para frente ao mesmo tempo em que freio o carro. Merda! Devia estar usando meu maldito cinto, mas ele fica me apertando. Do carro que me fechou saem dois moleques, os mesmos que prendi. Estão armados. Eu tento reagir, levo uma porrada de um deles, sou espancado e tudo apaga.

- Acorda, seu filho da puta.

É a voz de um deles, o mais novo, tão novo que eu posso ver que ainda não faz a barba.

- Ninguém mais diz boa noite?

Tento ser irônico, sempre funcionou quando era mais jovem, porém um deles responde.

- Tu se achaste muito macho quando deu aquelas porradas na gente, agora tu vai morrer e ninguém vai te achar. Nós estamos no meio do nada, só tem um deserto de areia e um mar aqui, longe da cidade.

Ele tinha razão. Eu ia morrer ali mesmo. Eles me arrastaram até um poço de água abandonado.

- Vamos te matar e colocar aqui. O poço não é mais usado. A areia vai vir por aqui e vai cobrir você todinho. Vai demorar, mas vai acontecer. Ninguém vai te achar.

Nesse momento penso em várias coisas. Penso em como fui estúpido, em como nada vale a pena. Eles deixam as armas de lado, decidem que vai ser melhor me jogar no poço. Eles resolvem fazer isso e deixam as armas no chão. Rapidamente, eu escuto tiros, um deles cai no chão e desmaia. O outro está morto. E quem atira? Seria deus? Seria um anjo?

- Eu sabia que você tava encrencado.

Era a garota! A garota, meu deus! Ela é deus, ela é um anjo! Eu finjo que não estou emocionado e falo calmamente.

- Me desamarra.

Ela faz isso, eu decido que é melhor jogar o cara morto no poço e o outro eu amarro.

- Obrigado. E agora deixa comigo.

- De nada, mas para que serve a garrafa?

- É melhor não contar.

- Eu acabei de salvar sua vida, sabia?

- Bom, é para dar sorte e eu acho que funcionou.

É uma puta mentira. A garrafa era para eu mijar caso sentisse vontade enquanto fazia uma tocaia. Algo que vi em um gibi ou em um filme, sempre ajudou na hora do aperto, mas queria falar algo legal para ela.

- Legal.

- Vá para o carro, já encontro você.

Ela me obedece, pego a arma e vejo o cara amarrado acordar. Ele me vê jogar o corpo do amigo dele.

- Hei, você não pode fazer isso!


Pelo visto ele teve uma ideia do que ia acontecer.

- Por que não?

- Tipo, meu pai vai pegar você! Ele vai te destruir!

- Seu pai nunca vai te encontrar, você mesmo disse isso. Você vai sumir.

- Por favor, cara, não faz isso, por favor! O que vai ser de mim?

- Não se preocupe, são apenas grãos de areia.

Eu o jogo no poço, ele cai em cima do cadáver. O que eu senti? O que você sente quando dá a descarga? Entro no carro e a menina me pergunta:

- Não é perigoso deixar eles lá?

- Não. São apenas grãos de areia.




Olavo é Formado em Direito, pseudo advogado, tradutor ocasional e quadrinhofilista.

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O conto do Olavo (que gostei muito) é uma interessante peça de influências. Vemos claramente Rubem Fonseca, como em quase toda a literatura contemporânea brasileira. Temos, é claro, muita influência da moderna literatura policial, Garcia Rosa principalmente. Uma boa dose de cinema noir e policial, mas principalmente, o que mais me chamou a atenção, muito de quadrinhos. Vocês podem se lembrar da lista que o Olavo escreveu para as comemorações do blog, sobre os 10 quadrinhos favoritos dele, a ideia da lista foi justamente pela paixão e conhecimento dele pelo gênero e isso vasa de maneira inusitada no conto. O que mais se destaca é a menina servindo de sidekick para o protagonista "solitário" e até salvando o dia a la Jason Todd em Para o Homem que Tem Tudo. Sensacional!


domingo, setembro 22, 2013

Mudanças de rumo, mudanças de vida





Olá pessoal, acredito que todas as pessoas que costumam acompanhar o Han - e por incrível que pareça, alguns malucos fazem isso há alguns anos - perceberam a profunda mudança de rumos que se deu no blog no ano que se passa.

Antes de 2013 o Han estava em estado semi-criogênico, tendo tido 2 ou 3 postagens nos 2 anos anteriores. Basicamente o que acontecia é que eu escrevia no blog apenas quando tinha uma motivação profunda demais para poder ignorá-la, a saber, nos últimos dois anos foram - em ordem - minha revolta com a falta de interesse e cultura de meus alunos; a minha profunda paixão pela obra de Will Eisner (que havia se avivado com a leitura de Nova York: A vida na grande cidade) e a venda da Lucas Films para a Disney.

O Han sempre foi um blog com profundos problemas de identidade. Alguns amigos meus possuíram blogs assim e quando quiseram mudar de rumo simplesmente trocaram de blog, resolvendo o problema. Eu nunca quis me separar do Han, talvez seja minha mania de se apegar demais as coisas, talvez seja o nome que é bom demais, não saberia explicar com certeza... O caso é que o Han surgiu como um blog literário, lá em 2005 e no começo só publicava meus poemas, ou seja, nem outros gêneros literários eram contemplados! Depois de um tempo, deslumbrado pela cultura pop e escrevendo textos literários em outro blog (o Quatro Patacas) guiei o Han em outro caminho, virou um blog de resenhas e de comentários sobre as coisas que gostava. Foi divertido, tanto que ainda hoje essa verve do blog aparece de vez em quando (como na resenha que fiz da Graphic novel Turma da Mônica: Laços; ou na lista que fiz sobre As 10 melhores músicas da história dos games), mas não era o caminho do blog, tanto que nessa "fase" várias vezes fiquei longos períodos sem postar... mas sempre voltava, como se o Han fosse parte de mim, e talvez ele seja mesmo.

Até que a Daniela aconteceu. Tá tecnicamente foi a segunda vez que ela aconteceu na minha vida e na verdade nunca deixou de acontecer. Como eu disse no texto em que apresentei ela a vocês leitores, ela veio para publicar alguns textos que havia escrito, os primeiros que escrevera na vida. Veio para isto, mas ficou, tomou conta, me pôs na linha, cobrou esforço e resultados. Trouxe muitas ideias novas e me despertou de novo a vontade de ter um blog, de ser lido, de tocar esse projeto pra frente. E com ela o Han voltou a se firmar em suas origens, como blog de literatura e os contos passaram a tomar a primazia dos poemas (ainda que eu insista neles de tempos em tempos). Como dito no post de comemoração das 100 postagens do blog, nessa toada, estamos ativos o ano inteiro, sem falhar nenhuma semana desde que ela assumiu o barco. Sim, ASSUMIU O BARCO. Se quando a Daniela entrou, a ideia dela era apenas ter uma plataforma para compartilhar seus textos com o mundo, com o passar do tempo ela foi revolucionando esse velho e carcomido blog. Colocar as fotos dos autores do lado, ideia dela. Um dia específico para as postagens, ideia dela. Fazer montagens para ajudar a divulgar o blog, ideia dela. Chamar escritores novatos para "começarem" aqui no blog, também ideia dela. E junto dessas, foram muitas outras que não coloquei aqui. Muitas outras que ainda não colocamos em prática. Basicamente ela trouxe um vento novo e refrescante ao blog, assim como trouxe à minha vida. Hoje, não consigo mais considerar esse blog meu, não, não teria nenhuma vontade de mantê-lo sozinho, como fiz por muitos anos, mantê-lo às moscas, com posts eventuais. Não, hoje este blog é tão dela quanto é meu, tem tanto a cara dela quanto tem a minha. Não consigo pensar de outra que não esta. Então faço neste post especial (aproveitando o final das comemorações das 100 postagens do blog) a oficialização. O que já era de fato fica sendo de direito. Bem vinda Daniela, esta casa é sua!


quinta-feira, setembro 12, 2013

Post Especial - As 100 postagens do Han!


Esse é um comparativo do Han de 2005 
para o Han de 2013 com 100 postagens!
Tá, acho que não deu tão certo!


Olá pessoal como vão? Hoje é um dia muito especial, uma semana muito especial. Hoje o Han completa 100 lindas postagens!  Não é realmente muito para um blog que está no ar desde 2005, mas levando-se em consideração o fato de que ele passou ANOS sendo atualizado sem nenhuma regularidade, então é até impressionante!

O blog deu uma guinada no rumo com a adição da Daniela Matono, já que ela me forçou a ser regular e desde então o blog vem recebendo atualizações toda a semana. Nessa brincadeira estamos ativos sem pausa desde o começo do ano!

Para comemorar essa data eu planejei um post mega especial. Convidei 10 amigos do peito que nunca escreveram aqui (um deles é o Leandro, que está aí do lado e escreve de vez em quando, mas vale vai :D). Cada um desses escritores escreveu uma lista com 10 itens sobre assuntos variados (dando assim 100 itens, entenderam?) e, a partir de hoje, todo dia entrará no ar uma lista diferente. Abaixo estão os nomes dos autores, bem como a ordem das listas, todos os dias atualizarei esse post colocando o link para a lista em questão. O tema é uma surpresa, só clicando no link para saber.

Espero que gostem da brincadeira.

quinta-feira, setembro 05, 2013

As 10 melhores músicas de videogame de todos os tempos



Olá pessoal, hoje no Han teremos um Top 10, coisa que não faço há muito, muito tempo. 

Sou muito fã de videogames e uma das coisas que mais me chama a atenção são as trilhas sonoras magníficas de alguns jogos. Já até escrevi um texto há algum tempo para o finado Puxa Cachorra (que deus o tenha) contando minhas peripécias guiando dois cegos na Videogames Live Brasil do ano passado.

Vamos a lista, mas lembrando que são temas e não trilhas:


10 - Celles Theme - Final Fantasy VI (Super Nintendo)

Compositor: Nobuo Uematsu



Começamos com o melhor tema de um dos melhores jogos de todos os tempos, o incrível Final Fantasy VI. Fiquei em dúvida entre esse e o tema da Terra, mas acabei ficando com a beleza melancólica da nossa suicida favorita.

09 - Intro - Banjo-Kazooie (Nintendo 64)

Compositor: Grant Kirkhope



Ahhh Rare, ahhhhhhhhhhhhhhhh Rare... o que houve com você? Nossa, a trilha de Banjo-Kozzoie é ignorantemente boa. Selecionei logo a música de abertura que é a que melhor demonstra a loucura sonora que é esse jogo e a genialidade do senhor Kirkhope. Ahhh Rare, que deus a tenha!

08 - Overworld- Super Mario Bros 2 (NES)

Compositor: DEUS, aqui respondendo pelo outro nome dele, Koji Kondo.



Vamos então começar a falar de Koji Kondo? Koji Kondo... deve ser duro ser tão melhor que todos os seus colegas de profissão não? Pois é, o compositor número um da Nintendo está para os outros compositores assim como seu maior parceiro de trabalho, Shigeru Miyamoto está para os game designers. Ou seja, é uma discrepância absurda. Essa lista poderia ser a lista do Koji Kondo, mas limitei o tanto quanto pude a presença dele. Serão só 3 vezes (não dá pra ser menos que isso, sorry). Quanto a música em questão, é o melhor Overworld theme de todos os Marios (o do 3 chega BEEEEM perto). Essa levada de jazz é matadora, sério, posso ficar horas escutando só isso (e as vezes fico, tenho essa OST no ipod).

07 - Main Theme - Super Smash Bros Brawl (Wii)

Compositor: Nobuo Uematsu



Duas coisas, Nobuo Uematsu é um monstro. Esse é o tema de videogame com menos cara de tema de videogame que já ouvi na vida. Tem até letra em latim (que eu entendo e você não :P ), um primor!

Segunda coisa, responderei antes das críticas: Ahhhh, mas só tem jogos da Nintendo aí! Sim, fora um, todos os itens dessa lista são de consoles da Nintendo. A vida é assim meus caros padawans, injusta, convivam com isso.

06 - Cassino Night Zone - Sonic 2 (Mega Drive)

Compositor: Masato Nakamura



Olha a exceção aqui! Sério, as trilhas de Sonic são SEMPRE incríveis, a do Sonic 2 é a minha favorita e foi muito difícil selecionar uma música. Mas se tem que escolher uma, é essa. Melhor fase do jogo, melhor música do jogo, alguns dos melhores momentos da minha infância. Que maravilha!

05 - Frog's Theme - Chrono Trigger (Super Nintendo)

Compositor: Yasunori Mitsuda



Chrono Trigger tem a melhor trilha sonora da história da indústria dos games (é o melhor jogo já feito também, ah, e cura o câncer e traz a paz mundial... e é melhor que filhotes de gatinhos...) e tem TANTOS temas inesquecíveis que foi a escolha mais difícil da lista toda. No final ficou entre este e To far away times, com a vitória do tema do saposo! Caramba, Frog é meu personagem de videogame favorito, que história, que desenvolvimento... meu deus Square-Enix, o que houve com você?

04 - Overworld - The Legend of Zelda (NES)

Compositor: The Lord of the rings, só que mais foda, também conhecido como Koji Kondo



Kondo, seu lindo... só você mesmo poderia compor um tema que evocasse mais heroísmo do que o do Frog... caramba, esse Overworld é o tema de videogame por excelência (junto com o 1-1 do Super Mario Bros). Ouça, seja feliz, salve Hyrule e a folgada da Zelda pela milésima vez! (Estou abraçado com minha edição de Hyrule Historia enquanto faço esse Top 10)

 você duvidou né?

03 - Dr. Wily Stage - Megaman 2 (NES)

Compositor: Takashi Tateishi



Nossa, o que é esse tema? É simplesmente inacreditável o que um grande artista podia fazer com apenas 8 bits! Esse é o meu Megaman favorito de todos os tempos e é de chorar de tão difícil, principalmente a parte que é embalada por essa obra-prima. Capcom, vocês é outra empresa que perdeu a rumo bonito hein! Caramba, JOGOS DECENTES DO MEGAMAN NOVOS PRA ONTEM SEUS MALDITOS! Ufa!

02 - Dire, Dire Docks - Super Mario 64 (Nintendo 64)

Compositor: Koji "fucking-master-of-the-universe" Kondo



Última aparição do mestre Kondo na lista... ai ai, que música incrível! Em todos os sentidos, ela te dá a perfeita impressão da água, o que é justamente a ideia, já que é uma fase aquática. E é linda, linda demais. Essa música me desperta uma tristeza, uma solidão, um sentimento inexplicável que - diriam os imbecis de plantão - um "simples" videogame não deveria despertar. No final minhas favoritas são sempre as que me deixam mais triste, mais saudosista, mais desconsolado. Vai entender minha mente maluca.

01 - The Moon - Ducktails (NES)

Compositor: Hiroshige Tonomura




Falando em tristeza e melancolia revestidas de saudosismo... nossa, essa é uma pancada na cabeça! Não sou maluco pelo jogo em questão, não é um dos meus favoritos (diferente do restante do top 10 alias) mas essa música... é inexplicável, que coisa maravilhosa. Esse sentimento crescente, 8 bits... as vezes eles são mais do que o suficiente! Chega de falar, escute AGORA, faça esse bem a você mesmo.
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Espero que tenham gostado. Claro que ficou MUITA coisa que adoro de fora, cito aqui de cabeça as músicas da série Donkey Kong Country, de Super Metroid, de Star Fox 64 e da série Pokemon como as ausências mais cruéis.

O tema A de Tetris, um dos meus jogos favoritos e uma obra-prima, ficou de fora por não ser realmente original e sim uma adaptação de uma música tradicional russa.


quinta-feira, agosto 29, 2013

A Solidão





A partir de hoje começaremos uma nova série de postagens no Han, com autores completamente novos. Fizemos um chamado na nossa fan page do facebook para autores novos que quisessem publicar um texto no Han, a ideia era simplesmente criar vontade de escrever nas pessoas, o que é um empurrão importante para criar hábitos de leitura e escrita. Eu sou professor de português, convivo diariamente com o problema da falta de hábito de leitura e fico feliz de poder fazer o que posso para ajudar a melhorar isso.

A Daniela começou a escrever esse ano, coisa que ela nunca havia feito antes e pode-se dizer que tomou amor pela coisa. Partindo do exemplo dela abrimos este espaço. Então, a partir de hoje, toda última quinta do mês publicaremos um autor novo (caso tenhamos autores interessados sempre, é claro). Hoje começamos com uma autora iniciante que prefere ser chamada de Tempestade




O texto abaixo reflete coisas muito pessoais dela, portanto ela nos pediu para que usássemos este pseudônimo. Mas desde já digo, seja bem vinda! Espero que gostem do texto:

A Solidão

Tem dias, que ela chega, sem antes avisar... chega perto e te abraça... e abraça como uma amiga íntima, mas você não a quer... não quer que ela seja íntima sua...

Ela: “A Solidão”... chega sem dó... penetra em sua alma sem pedir permissão, invade seus pensamentos e coração como uma doença que se espalha rapidamente pelo organismo, sem dar chance para o seu combate, ela corrói, ela maltrata, ela usa sua energia para ficar mais forte... ela quer ficar e não tem data para partir...

Você pode senti-la, sim... você a sente correndo pelas veias e artérias, com uma força voraz... uma força sem controle algum, ela te consome gota por gota...

Mas você sabe que precisa ficar lúcido, precisa ficar atento... antes do bote final...

Mas não sabe como agir nem o que fazer... você já não possui mais forças, e o desejo maior é que ela acabe com você o quanto antes... o duro, é que ela não quer acabar com você, ela quer companhia, pois também se sente só.

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Só lembrando a todos que ainda podem mandar seus textos para análise no endereço de e-mail do blog: hanatirouprimeiro@gmail.com

quinta-feira, agosto 22, 2013

As coisas que tenho



O que eu tenho?
Um peito ferido,
um coração aberto,
fagulhas que queimam,
uma falta de fôlego
que não me deixa prosseguir.

O que eu tenho?
uma dor aguda,
um sorriso inconstante,
uma corrente que arrasta,
um vazio profundo,
um nada.

O que eu tenho?
uma desesperança,
uma rosa despedaçada,
uma luz sibilante,
um breu sufocante,
uma falta de vida,
um portão que se fecha.

O que eu tenho?
uma fenda aberta,
uma fúria de imagens,
um monstro gigante,
um algo
que não é, não foi,
nunca será.

O que eu tenho?
um lance de escadas
que nunca termina,
um punho fechado
de encontro a face,
um arrastar de pés,
um arrastar de alma.

O que eu tenho?
uma dica incompleta,
uma trilha deserta,
uma falta de tudo,
um rato nos restos,
os restos sem nada,
só sobras.

O que eu tenho?
uma dor aguda,
uma espera infinita,
um porão escuro,
uma fresta num muro,
um lugar sem lei
e sem lógica,
dentro de mim.

O que eu tenho?
um tropeço na calçada,
uma corça correndo,
um coelho fugindo,
uma dúvida intensa,
uma pá e uma vassoura,
pra recolher meus pedaços.

O que eu tenho?
um pôr-do-Sol,
nenhum amanhã,
um peixe no anzol,
uma devastação,
uma cara no espelho,
uma tristeza no olhar.

O que eu tenho?
uma melancolia,
uma frustração,
um impedimento,
um muro gigante,
um murro na faca,
uma partida, afinal.

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Esta semana um poema (quase nunca tem né :P ) bem triste e pessimista, mas de que gosto muito. Espero que gostem também.

Não sei se viram no facebook, mas o Han está a procura de novos autores para escrever, na verdade, de autores novatos. A ideia é publicar textos de autores que nunca publicaram nada em blogs, ou mesmo que nunca escreveram nada. A Daniela mesmo, antes de começar a publicar seus textos aqui, nunca havia escrito e agora tomou gosto pela coisa. Caso se interessem, mandem um e-mail para hanatirouprimeiro@gmail.com