terça-feira, abril 30, 2013

Macbeth, Ato V, cena v - Exercício de tradução



Dia desses parei em um tempo livre que tive entre aulas (as chamadas janelas) e me debrucei sobre um trecho da peça Macbeth de William Shakespeare que sempre me inquietou por sua complexidade filosófica e poética. Dificilmente o leitor médio nunca se deparou com esse trecho, famosíssimo e marcado pela expressão "som e fúria". Aqui o trecho original da peça.


"Life’s but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more. It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing."

(Shakespeare, Macbeth, ato V, cena v)

Minha tradução privilegiou duas coisas, a métrica, que no original são pentâmetros jâmbicos, um metro originalmente latino, mas que se tornou o mais clássico da língua inglesa. Claro que pentâmetros não são reproduzíveis no nosso idioma português, então procurei a equivalência, chegando ao óbvio do decassílabo, nosso metro mais clássico.

Procurei também manter o máximo possível do sentido original sem que este prejudicasse demais a fluência e o ritmo dos versos. Cheguei a este resultado - ainda muito precário e precisando de reformulações, mas que penso ser satisfatório e digno:


A vida não é nada além de uma
sombra que anda, um pobre ator que
pavoneia e lamuria seu instante
no palco e depois não é mais ouvido:
é um conto contado por um idiota,
cheio de som e fúria, significando nada.

(tradução de Arthur Malaspina)

Conversando com meu querido amigo Leandro Durazzo sobre esta tradução, despertei nele uma vontade de também traduzir o trecho. Ele produziu uma tradução totalmente diversa da minha, que se privando da necessidade da métrica rígida, pôde manter uma concisão típica da língua inglesa (e muito diferente de nosso idioma que é mais prolixo) que confesso ter deixado de lado em minha tradução. Percebam também que ele pôde - na medida do possível - manter grande parte dos jogos sonoros originais, mesmo que para isso tenha que ter feito pequenas alterações de vocábulos.


A vida é só uma sombra andando, ator simplório
afetado em seu instante sobre o palco
e logo mudo. Um conto contado
por um tolo, repleto de fúria, estrondo
e senso algum.

(tradução Leandro Durazzo)

Acredito que comparar nossos esforços tradutórios é um exercício bem interessante para perceber as dificuldades e agruras do fazer do tradutor. Como lidamos com línguas de saída e de entrada bem distintas, precisamos fazer escolhas léxicas e guiar o texto em um caminho a abarcar o que achamos ser mais importante no texto original, de maneira a - assim - produzir um texto digno do original e ao mesmo tempo poeticamente sustentável. Eu e Leandro fizemos escolhas distintas e produzimos textos bem distintos a partir de um mesmo original, apesar de ambos procurarmos a mesma coisa.




5 comentários:

oscar_b disse...

que eu saiba fool também pode significar bobo da corte...

Arthur Malaspina disse...

Pode sim ser bobo da corte, a palavra em inglês tem múltiplos significados. Eu poderia ter escolhido a tradução bobo, que também significaria os dois, mas acho que perderia a força da afirmação original.

oscar_b disse...

Alias, esse trecho pode ser encontrado em Slings and Arros, que foi produzido pela Globo como Som e Fúria (mas sem a última temporada, que eles interpretam Rei Lear). Acho que é a melhor série que já vi.
https://www.youtube.com/watch?v=8eTbXA2G9oI

Arthur Malaspina disse...

Preciso assistir esta série urgentemente!

oscar_b disse...

Caso se interesse, me avise que eu tenho ela e posso te enviar via torrent, mas já vou avisando que só tenho legendado em inglês...