quinta-feira, setembro 26, 2013

Grãos de Areia



Dando prosseguimento à nossa campanha de descobrir e publicar autores novos, o segundo participante é meu amigo Olavo Lima! O Olavo, também conhecido como Questão nas profundezas da internet, é um velho amigo meu de fóruns de discussão de quadrinhos e se mostrou aqui também um excelente contista policial. Apreciem este conto que foge bastante do tom normal daqui do Han!

PS: Lembrando que ainda podem mandar seus textos para o email do hanatirouprimeiro@gmail.com. Os textos de convidados vão ao ar sempre na última quinta feira do mês.






Toda história normalmente começa com algo chocante, algo que marque o início, algo que crie simpatia. Mas não a minha. A minha começa com um grão de areia, nada de muito valor, mas como tudo que podemos possuir, facilmente passa despercebido. Grãos de areia estão em todo lugar, na praia, na comida, no tempo, grãos tão pequenos que ninguém pode ver.

Amanhecia. Era mais um daqueles dias que você acorda suado e todo quebrado, como se balançasse a noite toda tentando pateticamente entrar em seu sonho, pois a vida é cruel demais para ser verdade. Eu faço o que sempre faço todos os dias: acordo, olho para o relógio para ver se posso dormir mais ainda, depois, quando não posso mais, escolho a roupa e a levo ao banheiro, tomo banho e visto no banheiro. Algumas pessoas levam a roupa ao quarto, mas não eu. Eu me visto no banheiro. Deve ser algum trauma de infância.
Ao sair de casa chego ao trabalho, olho para a janela e vejo a praia. De todos os lugares que olho eu posso ver a praia: grãos de areia em toda parte. Meu chefe se aproxima de mim, seu olhar indica que ele não está feliz.

- Venha cá, seu miserável, mova-se.

Eu obedeço, mas tenho que admitir: gostaria de enfiar a cabeça dele na janela, mas eu me controlo, não me lembro porque, talvez por dinheiro. Eu olho para ele como uma criança levando bronca daquele professor de matemática que diz que você conversa demais.

- Olhe, eu sinceramente estou desapontado, você sabia quem eram aqueles guris?

Ele me encarava achando que eu fosse mentir, mas eu sou idiota: eu nunca minto.
- Sim, eu sabia.

Seus olhos fixam em mim tentando entender como alguém pode ser tão estúpido ou ingênuo.

- Eles eram a merda dos filhos do governador. Você entende isso? Você não pode sair por ai prendendo eles. Se os guris correram demais ou estavam bêbados, o problema não é meu e nem seu.

Eu olho fixamente em seus olhos e o desafio.

- Por quê?

Ele se espanta como não vejo em anos. Valeu a pena ter esmurrado aqueles playboys.

- Como “por quê”? Merda, se o pai dele quiser, ele nos tira daqui e você perde seu emprego.

Ah! É mesmo! Esqueci de dizer. Meu emprego é de investigador de polícia. No Brasil não existe esse lance de detetive, não do modo que as pessoas pensam, a maioria das vezes nos somos um bando de manes tentando fazer algo de útil e nos sentimos um lixo.

- Olha, você vai ficar suspenso. Pela primeira vez em toda minha vida, depois de ser cuspido, esmurrado, humilhado, pela primeira vez eu me exalto.

- Porra! Como assim eu vou ser suspenso? Aqueles filhos da puta estavam bêbados, pegaram uma garota de 14 anos e estavam quase violentando ela!
Ele simplesmente fala:

- Você pode provar isso?

- Tem o boletim de ocorrência.

- O boletim só tem o que eles quiseram que tivesse. Os pais da menina não prestaram queixa. É sua palavra contra a deles, agora suma daqui.

Eu pensei: talvez ele estivesse certo, talvez eu fosse um idiota, talvez a garota quisesse estar com eles, como todas essas meninas de bairros pobres, ela só quisesse fazer algo para que pudesse se sentir viva, ou fosse uma vadia qualquer. Hoje não há mais romantismo. Isso me deixa puto! Queria que a vida tivesse mais sentimento, mais vida. Bom, pelo menos vou tomar um coco na praia.

Quando ando com meu carro eu vejo os dois moleques de novo. Sei que não devia segui-los, é encrenca, mas eu não escuto minha consciência. Eles vão a uma área desolada da cidade, não existe quase nada, apenas uma praia e um bairro onde quase ninguém anda. Anoitece e eu estou aqui ainda, quando alguém fala comigo:

- Hei, moço!

Levo o maior susto. É uma garota, a droga de uma garota, ela não devia ter mais de 13 anos.

- Putz, está muito tarde. Você não acha que é perigoso estar aqui?

- Ah! Liga não! Vivo aqui. Sempre acontece algo legal.

- Seus pais não vão ficar preocupados?

Ela simplesmente sorri e diz:

- Você é engraçado. Minha mãe está dormindo agora. Meu pai... Bem... Ele não se importa muito... Mas, me diz, você está numa tocaia, tio? Que nem naqueles filmes antigos?

- O que a faz pensar que estou em uma tocaia? Se estiver, o que diabos você tá fazendo aqui?

- Você tem cara de policial.

- Cara de policial?

- Policial brasileiro, tipo, fora de forma, com cara de durão, do tipo que odeia tudo ao seu redor. Eu adoro contos policiais, vivo lendo, meu tio tem um monte.

- Mas espera ai! Eu não estou tão fora de forma assim!

Eu fico olhando para a minha barriga e fingindo para mim mesmo que ela está errada.

- Hehe. Bom, mas para que serve a garrafa vazia?

- Garota, você não acha que está chamando atenção?

- Eu? Eu cuido das coisas por aqui, eu não chamo atenção.

- Onde fica sua casa? Vou te levar, entra ai.

- Obrigado, mas tipo, para que serve a garrafa?

Eu desconverso, a levo para a casa, penso em deixar tudo para lá e voltar para o meu caminho, quando sou fechado por um carro. Sinto meu peso ir todo para frente ao mesmo tempo em que freio o carro. Merda! Devia estar usando meu maldito cinto, mas ele fica me apertando. Do carro que me fechou saem dois moleques, os mesmos que prendi. Estão armados. Eu tento reagir, levo uma porrada de um deles, sou espancado e tudo apaga.

- Acorda, seu filho da puta.

É a voz de um deles, o mais novo, tão novo que eu posso ver que ainda não faz a barba.

- Ninguém mais diz boa noite?

Tento ser irônico, sempre funcionou quando era mais jovem, porém um deles responde.

- Tu se achaste muito macho quando deu aquelas porradas na gente, agora tu vai morrer e ninguém vai te achar. Nós estamos no meio do nada, só tem um deserto de areia e um mar aqui, longe da cidade.

Ele tinha razão. Eu ia morrer ali mesmo. Eles me arrastaram até um poço de água abandonado.

- Vamos te matar e colocar aqui. O poço não é mais usado. A areia vai vir por aqui e vai cobrir você todinho. Vai demorar, mas vai acontecer. Ninguém vai te achar.

Nesse momento penso em várias coisas. Penso em como fui estúpido, em como nada vale a pena. Eles deixam as armas de lado, decidem que vai ser melhor me jogar no poço. Eles resolvem fazer isso e deixam as armas no chão. Rapidamente, eu escuto tiros, um deles cai no chão e desmaia. O outro está morto. E quem atira? Seria deus? Seria um anjo?

- Eu sabia que você tava encrencado.

Era a garota! A garota, meu deus! Ela é deus, ela é um anjo! Eu finjo que não estou emocionado e falo calmamente.

- Me desamarra.

Ela faz isso, eu decido que é melhor jogar o cara morto no poço e o outro eu amarro.

- Obrigado. E agora deixa comigo.

- De nada, mas para que serve a garrafa?

- É melhor não contar.

- Eu acabei de salvar sua vida, sabia?

- Bom, é para dar sorte e eu acho que funcionou.

É uma puta mentira. A garrafa era para eu mijar caso sentisse vontade enquanto fazia uma tocaia. Algo que vi em um gibi ou em um filme, sempre ajudou na hora do aperto, mas queria falar algo legal para ela.

- Legal.

- Vá para o carro, já encontro você.

Ela me obedece, pego a arma e vejo o cara amarrado acordar. Ele me vê jogar o corpo do amigo dele.

- Hei, você não pode fazer isso!


Pelo visto ele teve uma ideia do que ia acontecer.

- Por que não?

- Tipo, meu pai vai pegar você! Ele vai te destruir!

- Seu pai nunca vai te encontrar, você mesmo disse isso. Você vai sumir.

- Por favor, cara, não faz isso, por favor! O que vai ser de mim?

- Não se preocupe, são apenas grãos de areia.

Eu o jogo no poço, ele cai em cima do cadáver. O que eu senti? O que você sente quando dá a descarga? Entro no carro e a menina me pergunta:

- Não é perigoso deixar eles lá?

- Não. São apenas grãos de areia.




Olavo é Formado em Direito, pseudo advogado, tradutor ocasional e quadrinhofilista.

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O conto do Olavo (que gostei muito) é uma interessante peça de influências. Vemos claramente Rubem Fonseca, como em quase toda a literatura contemporânea brasileira. Temos, é claro, muita influência da moderna literatura policial, Garcia Rosa principalmente. Uma boa dose de cinema noir e policial, mas principalmente, o que mais me chamou a atenção, muito de quadrinhos. Vocês podem se lembrar da lista que o Olavo escreveu para as comemorações do blog, sobre os 10 quadrinhos favoritos dele, a ideia da lista foi justamente pela paixão e conhecimento dele pelo gênero e isso vasa de maneira inusitada no conto. O que mais se destaca é a menina servindo de sidekick para o protagonista "solitário" e até salvando o dia a la Jason Todd em Para o Homem que Tem Tudo. Sensacional!


Um comentário:

Questão disse...

nossa,me sinto muito honrado com a critica do arthur e espero que o povo curta