sábado, setembro 11, 2004

Sentimental casting – Minhas 10 novelas prediletas


Continuando as comemorações de 100 posts aqui no Han o segundo convidado é Fábio Leonardo Brito (que é dono do blog Super Cult, além de professor universitário, cliquem no link e prestigiem o trabalho dele). Conheci o Fábio por meio do Puxa Cachorra, ele era um fã do blog e acabamos entrando em contato e tecendo uma amizade. Como sabia que o cara é fissurado por novelas (e confesse, você já viu algumas, ou ainda vê) pedi a ele que escrevesse uma lista para o Han sobre esse tema. Eis o resultado:

Sinhozinho Malta, Viúva Porcina e Roque Santeiro
felizes antes de saberem que não entraram na lista

Passei metade da minha vida na frente da TV. Desse tempo, pelo menos mais da metade foi assistindo novelas. Sempre fui um aficionado por telenovelas, desde moleque, a despeito de qualquer preconceito machista. Na minha casa, ver novelas sempre foi uma instituição que atingia a família inteira – bem como comentá-la na mesa do jantar, ou conversas em qualquer nível. Com esse sentimento, nutri um desejo, embora não muito trabalhado, de um dia atuar como roteirista e/ou crítico de TV. Enquanto esse dia não chega, blogo sobre o assunto – dentre outros – no SuperCult, minha caverna virtual, que linkei aí acima. E, a convite do Arthur Malaspina, vos fiz essa lista com as 10 novelas do meu “sentimental casting”. Boa leitura!

10. A Viagem (1994)



O reconhecimento de que a vida terrena é apenas uma etapa na evolução se transforma em uma história de amor, narrada por Ivani Ribeiro, e que tem como cenário o Nosso Lar. Essa premissa, que já tinha se transformado em sucesso na TV Tupi em 1975, retorna, em um belo remake da Rede Globo, em 1994. Lembro que eu tinha 5 anos de idade quando a primeira versão passou, mas a novela já me despertava interesse. As memórias mais fortes eram o temor em torno das aparições do espírito atormentado de Alexandre (Guilherme Fontes), e o domínio que ele exercia sobre alguns personagens, como o ex-cunhado Téo (Maurício Mattar), Guiomar (Laura Cardoso), sogra do seu irmão Raul (Miguel Falabella), e Tato (Felipe Martins), filho do advogado que o acusou em vida, Otávio Jordão (Antonio Fagundes); bem como o mistério em torno do mascarado Adonai (Breno Moroni), um homem de rosto desfigurado, que se esconde por trás de uma máscara e uma roupa de pierrô. A bela interpretação de todos os atores, especialmente a história de amor além-vida terrena de Otávio e Diná (Christiane Torloni) foram a grande marca dessa história.

9. Anjo Mau (1997) 



Descobri Anjo Mau quando essa novela reprisou no Vale a Pena Ver de Novo, em 2003. Claro que tinha conhecimento de sua exibição, mas, na época, não lhe dei atenção. Nessa reprise, no entanto, o sucesso escrito por Cassiano Gabus Mendes em 1976, que ganhara nova versão pelas mãos de Maria Adelaide Amaral em 1997, vinha para mim como um dos maiores brilhos de Glória Pires, atriz que eu, embora conhecesse desde sempre, passava a observar com mais atenção. A trama, originalmente proposta como a inescrupulosa escalada social de Nice (Glória Pires), uma babá que fará de tudo para se casar com o patrão Rodrigo (Kadu Moliterno), se torna uma grande história de amor, e a anti-heroína da trama ganha contornos de mocinha, sendo salva da morte, prevista para ela no último capítulo. Para os menos envolvidos com as discussões de teledramaturgia, não é tão divulgada a seguinte curiosidade a respeito da novela: foi este o primeiro trabalho de colaboração do roteirista Vincent Villari, hoje um dos autores principais de Sangue Bom, então com apenas 16 anos.

8. Um Anjo Caiu do Céu (2001)



As novelas de Antonio Calmon, com seus núcleos juvenis e suas histórias leves, sempre me atraíram para a TV às 19h. Essa em especial: Um Anjo Caiu do Céu pode ser considerado o grande clássico do autor. Criativa, leve, divertidíssima, muito bem dirigida e atuada, a história deu brilho a Caio Blat – não mais um estreante, apesar de muito jovem – e Tarcísio Meira, que se reinventava em um papel de comédia. A relação de João Medeiros (Tarcísio Meira), um fotógrafo brasileiro que sofre atentado em Praga, por parte de um grupo neonazista, com sua família é revisada quando este tem uma experiência de quase-morte, e passa a receber a companhia do atrapalhado anjo Rafael (Caio Blat), que o ajudará a colocar nos eixos sua relação com a ex-mulher Naná (Renata Sorrah), e abrir os olhos desta para as cafajestagens de seu marido atual, Tarso (José Wilker). Também era função de João, com a ajuda de Rafael, arrumar a vida de suas filhas: Duda (Patrícia Pillar), que vive uma vida e um casamento incompleto por ter perdido o filho mais velho, Kiko (Jonatas Faro); Virgínia (Deborah Evelyn), magoada com o pai pela sua distância, quando ela sofre um acidente e fica manca; e Duda (Débora Falabella), que não sabe ser sua filha, e vive atormentada pela mãe, a tresloucada estilista Laila (Christiane Torloni). O tema da divertida abertura da novela era uma versão animada do Pato Fu para “Meio Desligado”, sucesso d’Os Mutantes.

7. Cordel Encantado (2011)



O imaginoso universo cultural nordestino ganha vida nesse belo trabalho de televisão de arte. Cordel Encantado, uma novela que misturava literatura de cordel, contos de fadas, histórias tradicionais do Nordeste e tramas de capa-de-espada, dá vida à história dos nobres de Seráfia, um reino europeu, cuja princesa herdeira, Aurora, foi dada por morta quando criança. Aurora, na verdade, foi criada como Açucena (Bianca Bin), uma moça simples, habitante da nordestina cidade de Brogodó, perdidamente apaixonada pelo valente Jesuíno (Cauã Reymond), que, embora também não saiba, tem a nobre linhagem sertaneja dos cangaceiros, por ser filho do temido Capitão Herculano (Domingos Montagner), capitão de um bando. Um show de efeitos especiais na guerra de Seráfia, que marcou o primeiro capítulo da novela, um belo texto, poético, cheio de significados, e uma trilha sonora absolutamente condizente, fazem dessa uma de minhas novelas prediletas.

6. A Próxima Vítima (1995)


“Todos os personagens vão morrer.” Essa era a primeira chamada que nos indicou que uma novela nova estrearia em 1995. A Próxima Vítima começava com uma campanha que fazia de seus personagens procurados pela justiça, o que, na minha cabeça de garotinho de 6 anos na época, era assustador. Corria chorando pros braços da mãe sempre que via isso na TV. Anos mais tarde, mais especificamente em 2001, eu assistiria à novela na íntegra no Vale a Pena Ver de Novo, e me depararia com a genialidade de Silvio de Abreu, em bolar aquela que, talvez, seja a melhor novela policial de todos os tempos. Um serial killer, que poderia ser qualquer um dos personagens, fazia vítimas através do envio de uma folhinha com um horóscopo chinês. Mais do que saber quem seria o assassino e seus motivos, parava o público pensar em quem seria a próxima vítima. O autor resolveria esse intrincado mistério em um último capítulo que pararia o país. Na primeira exibição, o assassino era Adalberto (Cecil Thiré). Na versão exibida no Vale a Pena Ver de Novo, ele seria Ulisses (Otávio Augusto). Em ambos os casos, a trama se explicava de maneira muito bem amarrada.

5. Da Cor do Pecado (2004)


Gostei de Da Cor do Pecado desde o primeiro capítulo. A novela me parecia tudo que, naquele momento, eu queria assistir: uma história de amor, regada a um drama entre pai e filho, rodeada de alguns tipos diferentes de comédia. Essa, certamente, era a marca da trama de estreia de João Emanuel Carneiro: um drama central, magistralmente urdido, e centrado na história do atormentado Paco Lambertini (Reynaldo Gianecchinni), dividido entre Preta (Taís Araújo), o amor que conhece em São Luís (MA), e Bárbara (Giovanna Antonelli), sua noiva, que, ele não desconfia, o trai com o fotógrafo Caíque (Tuca Andrada). Em torno da história de Paco, movimentada, também, por suas constantes brigas com o pai, o magnata Afonso Lambertini (Lima Duarte), giram as histórias de Helinho (Matheus Nachtergaele), um vidente de araque de São Luís; Eduardo (Ney Latorraca) e Verinha (Maitê Proença), pais de Bárbara, ex-ricos que querem sair da pindaíba a qualquer custo; e da família de lutadores Sardinha, liderada pela “Mamuska” Edilásia (Rosi Campos), que se relacionaria intimamente com a trama central, a partir do segredo que aproxima Paco de Apolo (também Reynaldo Gianecchinni), filho mais velho de Edilásia.

4. A Vida da Gente (2011)


Desde sempre, tive uma atração por histórias de cumplicidade entre amigos e irmãos. Talvez por ser filho único, e experimentar pouco dessa experiência, sempre me apaixonei pelas histórias que envolviam esse tipo de premissa. A Vida da Gente, portanto, me surgiu como uma agradável surpresa. No início, todos tomávamos a trama de estreia da autora Lícia Manzo como o trabalho de um “Manoel Carlos de saias”, o que não deixou de fazer algum sentido. Mas Lícia, ao longo do trabalho, muito embora demonstrasse muito do estilo familiar de Maneco, se revelava uma autora particular: sua história, mesmo bastante cotidiana, tinha bons ganchos, e não deixava o público a esperar por coisas novas. Os conflitos se desenrolavam de maneira natural, mas sempre consequentes. O foco da história entre o triângulo amoroso formado por Ana (Fernanda Vasconcelos), Rodrigo (Rafael Cardoso) e Manuela (Marjorie Estiano). Ana, após um acidente de carro, fica em coma por anos, e sua filha recém-nascida é criada por Rodrigo, o pai, e Manuela, irmã de Ana. Quando Ana desperta, encontra um mundo bastante diferente, e tem dificuldades para se reintegrar. No entanto, para além da história de amor em torno de Rodrigo, o grande foco era o amor fraternal entre Ana e Manuela, por quem o público de fato torcia para que se chegasse a uma reconciliação no final.

3. Ti Ti Ti (2010)


Há três anos, estreava um remake. Mas chamar Ti Ti Ti de remake seria, no mínimo, uma definição incompleta. Era, de fato, um trabalho de Maria Adelaide Amaral, onde eram reatualizadas duas novelas de Cassiano Gabus Mendes. Plumas e Paetês, de 1980, e Ti Ti Ti, de 1985. O universo dramático da primeira, da qual foi retirada as trama envolvendo os protagonistas Marcela (Ísis Valverde) e Edgar (Caio Castro), bem como a história da industrial Rebeca (Christiane Torloni), foram alinhavadas com a comédia inteligente da segunda, centrada na disputa entre os “inimigos de infância” André Spina (Alexandre Borges), que enriqueceu sob a alcunha de um personagem, o estilista gay Jacques Leclair, e Ariclenes Martins (Murilo Benício), um “pobre diabo”, que muda de vida ao se tornar o também estilista Victor Valentim. Isso já seria o suficiente para a delícia da história, mas a trama de Adelaide não parou por aí. A novela foi uma grande farra, uma homenagem ao universo da teledramaturgia, recheada de metalinguagens e diversas outras formas de referências. O brilho da trama, além dos protagonistas, ficou por conta de Jaqueline Maldonado (Claudia Raia), personagem quase 100% modificada em relação à versão original, que explorou todas as facetas da atriz que a interpretava.

2. A Favorita (2008)


Novela das nove, com um drama-chavão (duas mulheres, uma rica e uma ex-presidiária, disputam uma filha), regado a um tango na abertura (eletrotango, mas um tango), e protagonizada por Patrícia Pillar, Claudia Raia e Mariana Ximenes. Receitas para uma novela mais-do-mesmo, certo? Errado! A Favorita, que começava como uma novela com todos os clichês do folhetim, teve a ousadia de dizer ao público que era diferente de tudo que já se vira até ali. A indagação sobre qual das duas protagonistas – Flora (Patrícia Pillar) ou Donatela (Claudia Raia) – dizia a verdade sobre o assassinato do jovem milionário Marcelo Fontini, pelo qual Flora foi acusada e passou 15 anos presa, movimentou a opinião pública, e chocou a todos com a revelação que Flora era, verdadeiramente, a assassina, e a grande vilã da trama. Lembro como se fosse hoje do dia em que assisti à revelação de Flora. Estava vendo à novela com meus pais. A revelação ocorreu no final do primeiro bloco do capítulo. A novela foi para os comerciais, e passamos todos os minutos até seu retorno calados, mudos, olhando para a TV.

1. O Clone (2001)


Calculo que O Clone tenha sido a primeira novela que me “pegou de jeito”. O texto de Glória Perez, talvez em seu trabalho mais ousado, aliado à direção de Jayme Monjardim, que lhe deu um tom mágico, a novela foi uma grande poesia, que aliou o então misterioso universo islâmico aos avanços da ciência, numa mistura que, ao mesmo tempo, causou incômodo e fascínio. A história de Lucas e Diogo (Murilo Benício), gêmeos, mas profundamente diferentes; do amor impossível do primeiro pela muçulmana Jade (Giovanna Antonelli); da ousadia do geneticista Augusto Albieri (Juca de Oliveira), de desafiar o divino e criar, em Léo (Murilo Benício), clone de Lucas, o Diogo morto, foram as armas para uma novela que parou o Brasil. Extasiante, para mim, foi assistir novamente a esse clássico no Vale a Pena Ver de Novo, em tempos recentes.


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Confesso que já vi bastante novela, apesar de fazer muitos anos que não assisto nenhuma (a não ser eventualmente na casa da Daniela QUE ASSISTE TODAS), mas minhas favoritas são Roque Santeiro, A Próxima Vítima e O Cravo e a Rosa.


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