quinta-feira, outubro 10, 2013

Resolução



"It's better to burn out than to fade away" 
Neil Young



Acordei com sono, é algo recorrente nos últimos tempos. Não importa o quanto eu durma, eu sempre acordo com sono. Estou ficando um pouco cansado disto, disto de tudo o mais. Não tomo uma providência porque tenho preguiça. Alias, acho que a preguiça é a única coisa maior do que o sono na minha rotina.

Outro dia eu acordei - com sono - e não pude me levantar. Parecia-me errado que eu me levantasse. Fiquei vinte minutos olhando o meu teto. Está sujo nos cantos, meio enegrecido. Quando consegui olhar as horas, já havia passado do horário da minha entrada no trabalho. Dei de ombros. Dormi até a tarde. Acordei com sono. Diabos!

Pensei em ir ao médico, procurar me tratar, mas sabem, foda-se o médico, fodam-se todos os médicos, maldita máfia branca! Não vou sair de casa, me cansar por nada! Pra quê? Já sei o que vou ouvir! Eu sei das coisas! Eu vejo coisas que mais ninguém vê! Sim, não porque não existam, mas sim porque ninguém as nota. Sim, sempre vi.

Uma vez - no tempo do colégio - fui com minha classe a uma competição em outra escola. Como nunca joguei nada fiquei sentado nas arquibancadas. Como nunca tive amigos fiquei sentado no canto das arquibancadas, sozinho. Como sempre fui curioso, fiquei olhando os alunos da outra escola. Foi aí que notei essa menina, era pequena, frágil, assustada. Aterrorizada de conviver com os outros alunos, tremia só de passarem perto dela. Vi os meninos da escola dela passarem por ela e baterem os pés, ela tremia e quase convulsionava em cada batida. Um fez uma careta e gritou "bu", ela tremeu e cobriu a cara, senti suas lágrimas, mesmo sem vê-las. O grito ecoou no meu ouvido e de certa forma nunca deixei de ouvir este ruído. Se fiz alguma coisa? Claro que não, apenas fui embora com a minha classe no final e nunca mais vi a menina.

Mas chega, chega! Preciso levantar da minha cama e ir trabalhar, não posso perder outro dia! Não posso perder meu último dia de trabalho. Decidi que é melhor explodir do que definhar e já comprei minhas balas! Será um dia inesquecível!

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Fazia um bom tempo que eu não escrevia um conto, e escrever contos para mim nunca foi tão natural quanto escrever poemas. Mas já há algum tempo venho encucado com esse verso de Hey hey my my / My my hey hey do Neil Young e me baseei nisso para escrever o texto. Procurei tornar o narrador-personagem em um gauche, mas ele naturalmente se tornou muito mais perturbador que isto. A foto me pareceu escolha natural. Espero que gostem.


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