terça-feira, fevereiro 25, 2014

Metal de Sacrifício




Sinto-me na vida,
como um metal de sacrifício,
um zinco-homem em prantos.

Desolou-me a alma
o martírio de te ver
assim, naqueles braços,
que não são meus,
que nunca foram.
E a dor, que deveria ser minha amiga,
e a dor, que deveria me defender dos outros,
a dor me traiu.
Desolou-me os pensamentos,
todos eles que eram direcionados a você.
E a dor, essa cafajeste,
que não pode cumprir um trato,
que não pode ser fiel,
a dor, ela mesma, me devorou.
Fui banquete da dor,
alimentei com minha própria carne
uma mesa farta
e dei a todos um banquete para marcar minha despedida.

Sinto-me agora,
depois de tudo,
apenas um amontoado de processos químicos.
Sem mágica, sem metáforas,
sem possíveis imagens e figuras de linguagem.
Nu.
Não.
Nada.
Nenhum.
Ninguém.

______________________________________

De volta aos poemas. Fiz este usando uma estrofe (a primeira) de um poema que escrevi em 2003. Sempre gostei do resultado dela, mas não do restante do poema. Resolvi aqui criar o restante novamente. Espero que gostem.


terça-feira, fevereiro 18, 2014

Diálogo





“Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!”

H: Te amo! Amo seus olhos, amo seu sorriso, amo seu corpo e toda sua beleza, mas também amo seus defeitos.

M: Como assim, ama meus defeitos?

H: Sem eles, você não existiria, não ao meu lado. Pessoas perfeitas só existem em filmes e histórias. 

M: E na vida real?

H: Pensando bem na vida real existem: são as musas... lindas, perfeitas, mas intocáveis! São apenas admiradas, porém nunca serão histórias vividas. Por isso amo seus defeitos, eles são parte de você! Você o qual tanto admiro... linda, perfeita na sua imperfeição! Minha rosa com espinho, porém a mais bela e perfumada de todas!

__________________________________________

Diálogo foi um texto que a Daniela escreveu baseado em um texto meu, Pedido, que eu havia escrito para ela de qualquer forma. Leiam o texto anterior caso não tenham lido, acho que formam um belo par.

terça-feira, fevereiro 11, 2014

Iluminação





Quando ele se sentou, em posição de lótus, uma paz súbita tomou seu semblante.

Não foi nenhuma paz mística, nenhuma neblina mágica que fez todos tranquilos. Nada disso! A verdade é que nada dessas coisas existem, nem energias, nem transmissão, nada. Ele apenas se sentou e ficou em paz consigo mesmo, e todos nós nos encantamos com a sua mudança, ela foi notável - como um ator que troca uma máscara de tragédia por uma de comédia - e todos os que ali estavam perceberam e se surpreenderam, em diferentes medidas. Alguns poucos, entre os quais eu me incluia, sentiram no seu âmago uma necessidade de paz, era algo que já estava ali, dentro de nós, nada veio dele, nada foi emanado, tudo já era nosso. Mas a vista do seu rosto, da profunda e sublime transformação em seu rosto, despertou-nos a vontade adormecida de paz.

E o seguimos. Na época achamos que era algo sobrenatural e talvez por isso, com o tempo, o abandonamos, aos poucos, um por um, o abandonamos. Uns, desiludidos por ele não ser um deus, outros, por desistir de um auto-conhecimento, ou por temer o que estavam vendo dentro de si mesmos. Outros ainda por já haverem se descoberto e nada mais terem a aprender. Eu fui o último, o derradeiro e só larguei a velha mão de nosso mestre quando esta já havia perdido toda a sua vida e era imperativo que se enterrasse seu corpo físico. Chorei - sei que é uma fraqueza que ele não possuia - mas eu ainda não encontrei minha verdade, meu caminho. Ainda estou preso às minhas tristezas e meus medos mundanos. Eu sei que não existe uma verdadeira iluminação, que nada nos conduz ao céu, ele apenas não existe, a não ser em nossas mentes e em nossas tradições, mas vendo a mudança na face de meu mestre, eu sei que há algo a mais dentro de mim mesmo e esse algo a mais eu ainda não encontrei, mesmo após tantos anos. Sou um velho num caminho noturno, já não há estrelas, o cinturão de Orion se apagou, e eu sigo desesperado um último vagalume por um corredor de sapos, protegendo sua parca luz das metralhadoras de línguas. Sinto-me só.

________________________________________________

Escrevi este texto ano passado, mas havia o deixado inédito por não ter encontrado o tom certo. Depois de algumas mudanças acho que posso compartilhar o resultado, transitório, com vocês, espero que gostem.


terça-feira, fevereiro 04, 2014

Verão





Havia nascido num verão
Tempo quente de farturas
Não conhecia privação
Nem noites frias e escuras.

Nasceu e morreu no calor
Sem se dar conta do frio
Nasceu e morreu no calor
Como as águas que passam num rio

Passou o verão mas não
Passa esta profunda impressão
De que na verdade não importa
Se realmente vivemos, ou não.

____________________________________________

O Han está de volta depois de uma longa pausa para as férias. Por conta de horários indefinidos publicaremos às Terças, talvez o dia permaneça, talvez mude. Bom ano para todos!