sexta-feira, abril 25, 2014

Bem vindo ao mundo real






Bem vindo ao mundo real... 
Bem vindo ao mundo selvagem: 
Olhe bem aonde você anda, pois há muitos ninhos de cobras, 
Tome cuidado com quem você anda, pois há amigos da onça,
E os abraços de ursos? Nem sempre são afetuosos,
às vezes são usados para te atacar enquanto você menos espera!
E quando você quer ajudar e o que recebe é um coice de cavalo?
Na verdade esse não é o mundo selvagem dos animais e sim dos
                                                                                  [humanos: 
se tivesse um ovo da amizade, da bondade e do amor
o que nasceria seria um ovo de sangue... 
É bem vindo ao mundo real! 
Bem vindo ao mundo de sangue!

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Hoje temos um poema novo da Daniela Matono, o que já não acontecia há algum tempo. Espero que gostem.


terça-feira, abril 15, 2014

Parley






Em cena Tom Quase Sem Dentes, Barba Ruiva e Coro de Piratas.

[Tom Quase Sem Dentes E Barba Ruiva lutam agressivamente enquanto são observados pelo Coro de Piratas]

Tom [fazendo um floreio com a espada]:
Que nome é este, Barba Ruiva?
Cadê a criatividade?
Eu mesmo já duelei
com vários de seus parentes!
Barba Negra, Barba Azul
hoje basta ser barbado
que o nome lhe é dado!

Barba Ruiva [cofiando a barba com a mão esquerda]:
Mas a minha barba não é mesmo ruiva?
E alguém chamado Tom Quase Sem Dentes
pode falar dos outros impunemente?

Tom [com o semblante risonho]:
Não podes dizer que falte
a este nome que me
deram, criatividade.

Barba Ruiva [também risonho]:
Mas que raios de criatividade?
Se os teus dentes estão pela metade?

Tom [fechando a cara]:
Parece que nos gracejos
se destaca, mas será
que tem tanta habilidade
no manejo da espada?

Barba Ruiva [com um sorriso irônico]:
Minhas habilidades com a espada,
sem nenhuma modéstia, são lendárias.
.Se quiseres provar do meu talento,
venha sem exitar, neste momento!

Tom: Pois não, se é o que queres!

[Começam uma briga bem disputada]

Coro de Piratas:
Qual será o resultado
dessa batalha cruel,
que afinal decidirá
quem irá nos liderar?

Corifeu [dando um passo à frente]:
 É impossível dizer,
só nos resta esperar.

[Apagam-se as luzes, fecham-se as cortinas e só se ouve o som de espadas]




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Aproveitando que estamos perto da Páscoa e sem criatividade para textos novos eu recuperei um texto antigo meu que ganhou uma interpretação falada do Luís Gustavo Guadalupe Silveira (no vídeo no começo da postagem). É uma das minhas experiências com a produção de pequenos diálogos dramáticos (que é o gênero que mais gosto de escrever). Espero que gostem!

terça-feira, abril 08, 2014

O Ocorrido





Ocorro que aconteceu quando de meus dez anos, época essa de reio e chibata a me estalar no lombo. Sempre pensei que a tonalidade clara de minha pele me levava a apanhar de meus pais ambos tão morenos. E qual não foi meu espanto quando, com de quinze já completos, descobri que a repressão ocorre do lado contrário. Mas no mas, devo me concentrar em contar o que se sucedeu aos dez, deixando coisas menores de lado.

Minha vida na época do acontecido era sempre fastidiosa, eu acordava, tomava café, brincava, lia, almoçava, brincava de novo, jantava e ia dormir. Sempre em meio à rotina me via surrado no chão. Até hoje não atino o motivo de tanta violência, se era ódio, ou apenas costume.

Meus pais são figuras difusas, como que se houvessem saído de dentro de uma das bailarinas de Degas, me lembro bem dos acontecimentos, dos fatos, dos detalhes, talvez melhor do que a maioria das gentes, porém idealizei-os de tal forma, que talvez não os transmita de verdade a vós leitores. Porém se os pintei diferentes ou não, não vem ao caso, pois ao caso mesmo são só os acontecimentos, no caso apenas um, excêntrico o bastante para cobrir com névoa todos os outros fatos da época. Tive, com imenso trabalho mental, que separar, isolar e recontar para que ficassem tão claros como o são hoje e como todos os outros de minha infância. Portanto a história que vos contarei é de vero a ocorrida, detalhe por detalhe, fato por fato, sem nuances ou pequenas modificações, porém o meio em que ela se tece, e os fatos que permeiam o fato maior são de terceira, pois me esqueci e me recontei, para depois lhes contar, portanto não se surpreendam os senhores se os fatos parecerem flutuantes, pois o contexto, simplesmente não é chão.

Meus dez me foram muito importantes, talvez meus melhores, não, melhores não, pois se há algo que não consigo idealizar, é minha infância. Foi ruim e pronto. Os meus dez foram talvez os mais interessantes momentos de minha desinteressante existência. Penso até que mesmo que fosse coroado rei me aborreceria, o interesse vem de dentro...

Foi aos dez anos que descobri a literatura. Pequenos exemplares encadernados, coisas como Robinson Crusoé e A Ilha do Tesouro, mas afinal todo mundo lê Robinson Crusoé e A Ilha do Tesouro. Porém no meu caso...Foram pequenas incursões, mas me tiraram da dor do meu pequeno pensamento. Já não doía mais. Agora eu raciocinava, ainda não mordia, mas já ladrava...baixinho. Antes só tinha o futebol, meus amigos e a TV. Sem desmerecer meus amigos, e a TV, e o futebol, mas isso me destravou. Ocorreu-me agora, alias, que não aprendi nada com meus amigos. Não aprendi nada com o futebol, talvez companheirismo e disciplina...mas pra que serve a disciplina? Não aprendi nada com a TV, talvez minha má postura. Porém aprendi infinitas coisas com os livros.

Voltando em novo parágrafo, pois segundo minhas antigas professoras “não se deve fazer parágrafos longos”. Porém o último ficou indigesto. Desculpe caro leitor se não aprendi nada em minhas aulas de redação. Voltando também ao assunto, creio que seria bom ir ao acontecimento, já que esse conto tem virtualmente essa finalidade...

Lembro-me senhores, que não transpus os fatos de minha aborrecida e dolorida infância, que por um acaso serve de pano de fundo para o ocorrido.

Comigo e meus irreais pais moravam mais quatro irmãos, que não apanhavam, e meu avô, já viúvo antes d’eu nascer. Meu avô era uma pessoa estranha. Pelo que diziam, há anos, antes mesmo de casar-se, não proferia palavra alguma que tivesse sentido. Diziam alias, que minha vó só casou-se com ele, porque o tomou por doutor e letrado, já que não entendia nada que ele dizia. Casou-se e depois de algum tempo se viu tendo que cuidar de um marido imprestável. E de fato o fez. Tiveram dois filhos, meu pai e uma tia minha que morreu durante um bombardeio na última guerra.

Meu pai... Meu pai logo depois de terminado o luto pela morte da irmã, se casou com uma amiga dela, minha mãe. Tiveram em ordem: David, Daniel, Décio, Adamastor(esse sou eu, apelidado de Damastor para manter a aliteração) e Maurício, o Dimba,  esse um rebelde incurável. Fugiu de casa aos treze e nunca mais deu as caras. David, o primogênito, o que deveria herdar tudo (que venhamos, era quase nada), criador dos varões, os netos que meu pai sonhara. Na verdade o único varão que o interessou foi um peão de obras com quem fugiu. Isso sem dúvida foi o maior choque que a nossa pequena e provinciana terra já sofreu. E eu, me orgulho imensamente de ter encoberto o caso e ajudados ambos a fugirem. Foram morar em São Paulo, pai o deserdou e o amaldiçoou. Após tantos anos confesso que talvez tenha incitado meu irmão a fugir, o velho merecia isso! Mas o que lhe importava, ele tinha Daniel...

Daniel, introduzido em novo parágrafo por resquícios das faladas aulas de redação, esse sim o orgulho do, dito, pai. Aluno exemplar, belo, atlético, popular, irreal. Cercado de garotas, aos vinte escolheu uma, Sara, filha de um grande amigo de meu pai; casaram-se, tiveram filhos e filha: Marcos, Mauro e Maria para não quebrar a maldita tradição aliterante, alias me lembrei que não me lembrei de dizer que meu pai se chamava Marcus Aurélius , assim  com pompa mesmo, e minha tia era Mariana. Minha mãe era Maria se interessa a vocês saber.

Décio o azarado. Um ano mais novo que Daniel, entrou ao mesmo tempo que ele na escola. Ficou a vida toda à sombra de Daniel, pegando as sobras. Para dar uma idéia, se casou com a amiga feia de Sara, feia e pobre. Dora, bom coração, mas afinal quem se importa com isso? Tiveram, para desespero de papai, quatro filhas: Maria do Carmo, Maria das Dores, Maria do Socorro e Maria da Salvação, todas feias...menos Maria das Dores, lindíssima esta, deslumbrante. Foi ela que deu os únicos bons momentos da vidinha de Décio, sua única vitória sobre Daniel. “Quem tem a filha mais bonita? Quem tem como filha a mais bela de todas as moças da cidade?” Tinha! O pobre era tão azarado que aos dezenove anos a moça adoeceu e morreu, em questão de dias. Para sempre se acabou a sorte do Décio. E logo se acabou o Décio também. Depois de ficar por cima não agüentou voltar a ficar por baixo...meteu um balaço na cabeça. E digo, foi só o miserável morrer que tudo começou a ir bem com a família dele, elas enriqueceram do nada. Foi só o Décio morrer.

Finalmente. Sobrou eu. Eu, o desajustado. Eu, o de barriga pro ar. Eu, o que só faz rebeldia. Eu, o do reio e da chibata. Nunca depois que cresci, fiz nada que meu pai quisesse. Quanto a minha mãe, desta só lembro o nome. Lembro dos gritos “Damastor seu imprestável, venha fazer algo que preste”, uma grande burrice, pois já que eu era imprestável, não faria nada que prestasse mesmo. Eu sempre fui eu e só isso. Nada mais que isso. Não estudei, não trabalhei em nada que valesse a pena, e nem trabalhei em nada até que a água batesse no queixo, chegasse à boca. Só me casei quando me quis ver livre dos meus pais. Nunca fiz nada por antecipação.

Falar de mim dói, muito mais que dissertar sobre os outros, muito mais. Sempre tentei escrever sobre mim, sempre doeu, sempre dói. Meu peito não bate mais que o necessário para a minha sobrevivência. Uma batida de cada vez.

Casei-me com uma moça chamada Linda, de saúde frágil não demorou a morrer, e me dói pensar que talvez seja por isso que me casei com ela. Não morreu sem me deixar dois filhos, gêmeos: Alice e Zacarias, duas letras tão distantes como se pode ser distante, meu exorcismo lingüístico. Quase que criei sozinho os dois, lindos e tratados com carinho, sem surras, nem desprezo. Isto os fez melhores do que eu. Mais serenos e menos revoltados com coisas sem importância e sem solução. Agora são mais eles que cuidam de mim, do que eu deles. Sem rancor.

Meu pai morreu, foi velado e enterrado sem que eu comparecesse, apenas mandei flores baratas. Minha mãe se foi um ano depois, acho que de tédio, pois de saudade não pode ser...é inconcebível sentir saudades daquele monstro. Não fui a seu velório, mas compareci ao enterro para me certificar que as rosas seriam depositadas. Rosas brancas, sem cor e sem sentimentos.

E agora chego ao fim desta narrativa curta. Contei muito sobre mim. Confesso que comecei a escrever com o intuito de contar um fato extraordinário ocorrido em minha infância, porém diante dos fatos da vida, tudo mais é encoberto.

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Escrevi este texto em 2004 e nunca o publiquei, acho que tem qualidades suficientes para que leiam. Espero que gostem.


quarta-feira, abril 02, 2014

Proposição






"(...)Eu sou a Raiz e o Descendente de Davi, e a resplandecente Estrela da Manhã."
Apocalipse 22:16


Indestrutível
Era a palavra que descrevia seu queixo
Inabalável
Eram seus calcanhares
Inominável
É seu nome,
Instantânea
A sua fúria.
Inconstante
O seu humor,
Importante
A sua figura,
Indecente
Os seus inimigos,
Incomensurável
O seu saber,
Inimaginável
O seu tamanho...

Impossível
A sua presença.


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Hoje volto com um pequeno poema, espero que gostem.