sexta-feira, outubro 03, 2014

Meus Pêsames




"Agora pequenas aves voavam gritando sobre o pego ainda aberto; uma soturna onda branca bateu contra os lados íngremes da voragem; depois tudo se fechou, e a grande mortalha das águas continuou a ondular, como já ondulava cinco mil anos antes"

MELVILLE, H. in Moby Dick, trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos


Quando eu tinha doze anos a bisavó de um colega de classe morreu. A escola nos levou, toda a classe, de ônibus, ao velório. Lembro-me vagamente do trajeto, todos os alunos dentro do ônibus, animados, afinal, era uma aula perdida. Não havia aquele peculiar clima de morte e tristeza e desolação que permeia os bons velórios. Quando chegamos o clima tampouco era o de um velório típico, a família, é claro, estava arrasada, mas os outros muitos presentes estavam visivelmente aproveitando a oportunidade, uma das poucas que uma cidade pequena proporciona, de se reunir, encontrar conhecidos, tomar uma cafezinho e cochichar podres sobre o morto. Nos aproximamos de nosso colega, que parecia um interessante meio termo entre a tristeza verdadeira de sua família e o desprezo alegre dos outros presentes. Cada aluno o cumprimentou, um por um, e quando chegou a minha vez eu disparei:

- Meus Pêsames!

Eu nunca havia usado essa expressão a minha vida, nunca havia pronunciado... nunca havia visto outra pessoa, no mundo real, pronunciá-la. Ela surgiu, espontânea e carregada da desimportância que aquela morte tinha para mim e para todos os outros que não eram da família. Eu havia desmascarado, sem saber e sem que ninguém percebesse, a hipocrisia da situação. Minha intenção, ainda que não intencional, era soar caloroso e demonstrar a importância daquela perda na minha vida. Consegui soar frio e realmente demonstrei a importância daquela perda na minha vida... a importância de uma aula perdida e um passeio de ônibus.

Por muitos anos esse acontecimento permaneceu dormente. Somente a pouco tempo recuperei essas memórias e tudo que elas significavam e percebi, finalmente, a importância que tem uma vida fora do nosso contexto. A importância de um cumprimento frio. Isso nunca havia me tocado, até que a morte também me tocou.

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Hoje faço a republicação de um texto meu de 2008, é um texto que gosto muito e que gostaria que conhecessem.

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